SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS

Educação e Reflexão

A importância da educação financeira na escola

É um caminho para a construção de patrimônios, ter condições favoráveis no futuro e honrar os compromissos

Publicado

em

Controle de gastos, poupar dinheiro e fazer investimentos. Estes são alguns pilares da educação financeira, proposta que ao ser inserida na
Foto: Divulgação

Leonardo Campos

Controle de gastos, poupar dinheiro e fazer investimentos. Estes são alguns pilares da educação financeira, proposta que ao ser inserida na educação básica e acompanhar a nossa juventude até a fase adulta, permite que tenhamos cidadãos conscientes de seus gastos e consumo e possam gozar dos privilégios de uma vida saudável em diversas perspectivas. Pessoas educadas financeiramente conseguem ter uma consciência mais ampla e firmeza diante dos impulsos quando o assunto é o seu orçamento pessoal, atravessando o cotidiano já cheio de obstáculos e adversidades sem preocupações desnecessárias e níveis de estresse que comprometem os seus relacionamentos pessoais, profissionais e até mesmo a convivência consigo mesmo, afinal, nada melhor que deitar a cabeça no travesseiro para dormir e saber que no dia seguinte, não precisará driblar os telefonemas e mensagens com cobranças de débitos que nos tiram do sério.

Nos meandros da educação financeira, as pessoas conscientizadas aprendem a lidar com o dinheiro sem que este controle as suas ações. Em linhas gerais, é um processo de transformação dos hábitos inadequados, bem como valores que mexem com a tessitura de suas vidas e permitem que estas entendam cabalmente o universo do dinheiro e as ferramentas possíveis para lidar com as finanças. É a pavimentação de um caminho que vai além do ato de economizar, num projeto de conscientização que faz os indivíduos traçarem um panorama das oportunidades e riscos envolvendo a temática urgente, haja vista o nosso contexto de mudanças econômicas bruscas e surpresas constantes. Na educação financeira, as pessoas são norteadas e recebem as instruções para melhor decidir o que fazer com o dinheiro que recebem, saindo do tortuoso ciclo dos ratos, termo que designa a prática costumeira de milhões de consumidores não apenas no contexto brasileiro, mas em escala mundial, isto é, trabalhar para comprar, depois pagar, trabalhar de novo e continuar pagando por aquilo que compra, sem reservas, apenas perpetuando uma narrativa cíclica onerosa em suas existências.

No bojo da educação financeira, fala-se sobre três conceitos básicos: ganhar, economizar e investir. É um caminho para a construção de patrimônios, ter condições favoráveis no futuro e dar conta de honrar os compromissos firmados nas despesas, tendo em vista evitar problemas financeiros. Ao passo que o indivíduo trabalha e acumula recursos, torna-se viável gerenciar e multiplicar tais fontes, mantendo assim os gastos mapeados e sob controle. É, também, uma mudança de mentalidade que visa administrar bem as suas próprias receitas. Por isso, tal como na educação para o trânsito e a consequente formação de pedestres e condutores responsáveis do futuro, a educação financeira colabora com as precauções de uma vida adulta endividada, afinal, a desorganização do dinheiro precocemente é algo muito corriqueiro em nossos tempos. Para isso, compartilharei uma breve situação que testemunhei há alguns anos, conectada diretamente com as explanações deste preâmbulo que pretende ser elucidativo.

Certa vez, enquanto atravessava a cidade para chegar ao trabalho, observava um grupo de jovens programados para um passeio no shopping. Na fala de uma das garotas, mantive-me atento. Ela dizia que ia comprar algumas roupas novas, porque estava cansada de usar coisas antigas e já surradas. O interesse veio também porque ela tinha acabado de conseguir o seu primeiro cartão de crédito, com um limite baixo, mas suficiente para satisfazer os seus interesses. Quando questionada sobre como iria pagar a fatura da dívida a ser parcelada, informou que não tinha se preocupado, pois conforme depoimento de sua tia, o débito não pago sairia em cinco anos dos registros de proteção ao crédito. Mesmo sem trabalhar para pagar o que comprou, a jovem sequer refletiu sobre como estabelecia as suas condições financeiras numa vida adulta prestes a começar já endividada e caótica. Infelizmente, muitos dos nossos jovens pensam de maneira parecida, despreparados para uma vida onde assuma as consequências de atitudes do tipo. Outro caso, também válido para delinear o tema, veio de um adulto pouco responsável.

Ansioso e interessado em fazer parte da histeria coletiva da Black Friday, o indivíduo fez o levantamento das coisas que eram de seu interesse no dia conhecido por promoções arrasadoras e ofertas imperdíveis. Saiu de casa, atravessou um trânsito absurdamente congestionado por causa da grande movimentação nos centros comerciais que cortam as principais vias da cidade, tendo em vista satisfazer aos seus anseios com dinheiro tomado de empréstimo. Sim, a figura que é parte da vida real, diferente dos personagens ficcionais abordados no tópico seguinte, exclusivo sobre educação financeira em narrativas cinematográficas, ligou para um cidadão conhecido e que trabalhava com empréstimo de dinheiro a juros, popularmente conhecido como agiota, para conseguir fazer as suas compras de produtos em promoção. Tomou R$500 e pagou R$650 no mês seguinte, pois o acordo previa juros de 30%. Em sua atitude consciente, mas guiada pelos desejos, ele teve os produtos que queria, tornando-se parte da coletividade consumista, mas arcou com os juros depois. Pior, o abatimento do que era promocional não teve sentido, pois o pagamento da dívida mais adiante deu praticamente no mesmo que adquirir tudo por preços normais. Uma situação tola e pitoresca, mas absurdamente verdadeira.

Diante do exposto, torna-se importante a preocupação dos gestores, coordenadores, professores e familiares, a criação de hábitos críticos diante das finanças desde cedo. Especialistas reforçam que por meio desta prática, os jovens estudantes inserem em seus respectivos cotidianos, práticas comportamentais que fazem toda a diferença no futuro. Disciplina, autocontrole emocional, organização detalhada e descrição em planejamentos, visão analítica do cenário em que se encontra inserido, bem como gerenciamento inteligente das finanças, dentre outras ações, podem criar a modificação de perspectivas. No Brasil, em 2009, foi criada uma lei que determina o tema como parte da grade curricular escolar, iniciativa que tem como intuito, permitir que as crianças e jovens sejam capacitados a alcançar e manter independência financeira. Ter uma planilha, estipular metas, planejar e pagar adequadamente as dívidas e criar uma planilha financeira para controle e visão panorâmica dos gastos são alguns dos caminhos quando o assunto é debatido na seara da sala de aula. Narrativas ficcionais, por exemplo, são opções lúdicas para permitir a reflexão abrangente e agradável sobre educação financeira, algo que funciona na dinâmica da sala de aula e se relaciona de maneira interdisciplinar com diversos segmentos importantes da formação dos nossos jovens, cidadãos do futuro. Observe.

O Cinema e a Educação Financeira: Reflexões e Entretenimento

Para quem desejar refletir sobre o assunto por meio de estratégias pedagógicas, o cinema e as séries televisivas apresentam algumas opções que permitem a demarcação de um eixo temático de debate, além de questões gravitacionais que abrangem as discussões sobre educação financeira e ocasionam um processo de ensino-aprendizagem mais assertivo e enriquecedor. O documentário Vivendo Com Um Dólar, lançado em 2013, é uma dessas opções. Dirigida e escrita por Sean Leonard, Chris Temple e Zach Ingrasci, a produção narra a história de quatro amigos que decidem realizar uma viagem para a Guatemala, tendo como projeto, viver apenas com um dólar diário cada um. Como se alimentar? E manter o sono saudável? São diversas perguntas que surgem diante desta narrativa que tece uma crítica contundente ao nosso sistema, repleto de desigualdades sociais, tal como ocorre com o drama A Procura da Felicidade, lançado em 2006, protagonizado por Will Smith e Jaden Smith, personagens inspirados numa história escrita por Steve Conrad e dirigida por Gabriele Muccino.

O ator interpreta Chris Gardner, um homem desempregado e arrasado com os rumos de seus endividamentos, abandonado pela esposa, Linda (Thandiwe Newton), mulher que via no protagonista um homem fracassado, sem jeito a dar para tantos problemas considerados infindáveis. Desesperado, ele perambula em busca de uma oportunidade, pois ao longo de boa parte dos 117 minutos da história, dorme em abrigos e se alimenta parcamente. É uma luta angustiante pela sobrevivência, até que ele consegue um estágio sem remuneração numa corretora de ações que não exige formação acadêmica, local que o ajuda a pavimentar um novo caminho e trilhar uma existência mais digna, mas não menos embasada em grandes sacrifícios. Ao trazer o drama para o contexto da educação financeira, podemos discutir a importância do estabelecimento de objetivos quando temos demandas para dar conta, tal como no caso de pessoas mergulhadas em dívidas desastrosas, ocasionadas por problemas diversos, isto é, compras impulsionadas por consumismo ou até mesmo assumir débitos alheios.

Controle de gastos, poupar dinheiro e fazer investimentos. Estes são alguns pilares da educação financeira, proposta que ao ser inserida na

No cinema brasileiro, duas opções interessantes para reflexão: O Homem Que Copiava, de Jorge Furtado, e Até Que A Sorte Nos Separe, de Roberto Santucci, ambos de 2003 e 2012, respectivamente. Na produção realizada por Furtado, Lázaro Ramos interpreta André, um jovem operador de uma copiadora, perdidamente apaixonado por Silvia (Leandra Leal), a sua vizinha. Dentre tantos acontecimentos do filme, interessante observar como ela se organiza para juntar uma quantia para ter o dinheiro suficiente e, assim, convidar a moça para um sorvete. Além do propósito dentro do eixo temático em questão, a versar sobre sacrifícios e objetivos, o filme também traz debates variados sobre desigualdade, corrupção e dilemas das pessoas que vivem mensalmente na corrida dos ratos, trabalhando para consumir, tendo que pagar posteriormente e mais adiante, dar continuidade ao processo cíclico aparentemente interminável. No segundo caso, uma família protagonizada por Leandro Hassum e Danielle Winits ganha na loteria, mas desperdiça todo o dinheiro com coisas luxuosas fúteis. Ao passo que as finanças entram no vermelho, o patriarca terá que explicar para a esposa que a vida de privilégios terá que entrar nos eixos, pois eles não dispõem mais da riqueza acumulada pelo prêmio. Divertida, a produção flerta com a importância da administração financeira, gerenciamento das emoções etc.

Controle de gastos, poupar dinheiro e fazer investimentos. Estes são alguns pilares da educação financeira, proposta que ao ser inserida na

Dirigido e escrito por Ben Younger, O Primeiro Milhão, lançado em 2000, aborda a trajetória de Seth Davies (Giovanni Ribisi), um jovem que vive de maneira corrupta em ações popularmente conhecidas por trambiques. Certo dia, tem a oportunidade de trabalhar formalmente, escolha que tem como foco, impressionar o seu pai, um juiz federal que lamenta a vida que o filho leva. O problema é que nesta empresa, ele descobre que as coisas não são de fato como imaginado, pois ações corruptas poluem o ambiente empresarial, repleto de pessoas com ética duvidosa. Nesta narrativa, o que temos de interessante é o processo cíclico da economia, com mudanças bruscas que pedem cautela no momento de qualquer investimento. O Homem Que Mudou o Jogo, lançado em 2011, baseia-se num argumento de Sean Chervin, transformado em roteiro por Steve Zaillian e Aaron Sorkin, dramaturgos que entregarem para o cineasta Bennett Miller, a saga de um time de baseball da Califórnia, massacrados com seus orçamentos apertados. Eles contratam um gerente de finanças para lidar com a crise, pois as mudanças prometem melhorar o desempenho da equipe nos campos. Dinheiro aplicado, tendo em vista gerar resultados oportunos e análises de estatísticas e estratégias estão entre os temas refletidos no filme.

Controle de gastos, poupar dinheiro e fazer investimentos. Estes são alguns pilares da educação financeira, proposta que ao ser inserida na

Na websérie brasileira R$100 Neura, a youtuber Fernanda faz os espectadores se divertirem e aprenderem educação financeira, nos episódios de cinco minutos, ideais para propostas pedagógicas sobre o assunto. Inspirada em situações aparentemente banais do cotidiano, o material demonstra como ter conhecimento sobre gastos e educação financeira são bases para a construção de pilares sólidos na vida adulta. Interpretada por Raissa Venâncio, a personagem também aborda poupança, numa linguagem acessível, cheia de referências ao mundo da cultura pop. Assinada pela Roquette Pinto Comunicação Educativa, em parceria com a AEF Brasil, a produção em 13 episódios diverte e reflete, tal como o didático e atraente Os Delírios de Consumo de Becky Bloom, tema do nosso próximo tópico sobre educação financeira e narrativas ficcionais. Antes de analisar a narrativa protagonizada com carisma por Isla Fisher, amarro este bloco com a série Billions, criada por Andrew Ross Sorkin, David Levien e Brian Koppelman. Na trama, Chuck Rhoades (Paul Giamatti) é um promotor público que investiga irregularidades nos negócios de Bobby Axelroad (Damian Lewis), responsável por um poderoso fundo de multimercados. Dentre os tantos temas, a série reflete como é importante termos conhecimentos mais que básicos sobre finanças para que possamos compreender os nossos negócios, investimentos e renda que pode variar a qualquer momento.

Propostas reflexivas com a comédia romântica Os Delírios de Consumo de Becky Bloom

Quer saber mais? Acompanhe o nosso próximo artigo, combinado?

Leonardo Campos é Graduado e Mestre em Letras pela UFBA.
Crítico de Cinema, pesquisador, docente da UNIFTC e do Colégio Augusto Comte.
Autor da Trilogia do Tempo Crítico, livros publicados entre 2015 e 2018,
focados em leitura e análise da mídia: “Madonna Múltipla”,
“Como e Por Que Sou Crítico de Cinema” e “Êxodos – Travessias Críticas”.

Continue Lendo
ANÚNCIO
Clique para comentar

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Educação e Reflexão

Consciência negra no cinema

Apresentamos algumas narrativas cinematográficas para discussão sobre racismo estrutural, lugar de fala, feminismo negro…

Publicado

em

Na esteira da Semana da Consciência Negra, apresento para os nossos leitores, em especial, os professores, algumas narrativas cinematográficas
Fotomontagem: Pixabay/Bahia Pra Você

Leonardo Campos

Na esteira da Semana da Consciência Negra, apresento para os nossos leitores, em especial, os professores, algumas narrativas cinematográficas para discussão sobre racismo estrutural, lugar de fala, feminismo negro, dentre outros tópicos importantes para uma nação que infelizmente, ainda vive a utopia da democracia racial. Vamos nessa? Leia sobre os filmes, assista as narrativas e depois, caso seja possível, prepare a sua aula com debates. Se for estudante, aproveite a oportunidade para ganhar mais conhecimento. Bons estudos!

A Negação do Brasil

Basta olhar nas redes sociais para estabelecer a análise: o Brasil é um país muito racista. Diferente dos Estados Unidos e do seu debate mais caloroso, aqui a questão é maquiada por uma agenda de disfarces mais tenebrosa que o movimento Blackface, um dos alvos da crítica deste documentário conduzido de forma didática, mas não menos interessante, um material que exala as celeumas do preconceito racial por todos os poros de seu tecido narrativo.

Oriundo de uma investigação contundente e detalhes da sua memória, o cineasta Joel Zito Araújo traz para a linguagem cinematográfica o material do seu livro homônimo, A Negação do Brasil, editado pela Cosac & Naify, uma referência na seara dos estudos sobre os movimentos intelectuais dos negros em nosso país. Fruto de sua tese de doutorado, o estudo é um profundo e triste retrato do racismo que dominou as telenovelas brasileiras ao longo da história deste suporte narrativo-midiático.

O que antes víamos com ludicidade e afeto, pelo olhar crítico e investigativo de Joel Zito Araújo, torna-se uma denúncia bem realizada. A felicidade no final de A Escrava Isaura, adaptação do romance de Bernardo de Guimarães, com a libertação dos negros por um heroico homem branco; as vilãs negras que conduziam os espectadores ao ódio; as cartas que Zezé Motta recebeu ao trabalhar como par romântico de um galã global; estas são apenas algumas das histórias entre tantas outras cenas humilhantes e deprimentes, ao qual muito dos nossos atores brasileiros negros foram submetidos para conseguir manter-se dentro do esquema de produção.

E para os que acham que o assunto é balela ou parte de uma sociedade “mimizenta”, basta olhar atentamente para a programação televisiva contemporânea, em especial, a aberta, mais especial ainda, a poderosa Rede Globo. Ano passado, acordei sem vontade de causar polêmica, conduzido pela paz e vontade de não ter que levantar bandeira pelo menos por aqueles instantes. Mas a televisão, onipresente tanto na minha quanto em várias residências ao redor deste país, apresentava um personagem parte de um jogo de culinária no programa de Ana Maria Braga, vestido dentro do esquema Blackface, leia-se, com a pele pintada de preto.

Não estou alegando, com esta informação, que o rapaz tenha sido racista, mas no mínimo pouco informado e desorientado por uma equipe que deveria ser mais cuidadosa, pois não é o ato em si, mas o que ele representa. Sabemos que tal atitude nos remete a uma violência simbólica histórica que não deve ser ignorada. O que dizer de Sexo e as Negas, de Miguel Falabella? Interessante por trazer o debate? Sim, mas cheio de estereótipos que não foram bem trabalhados. Acredito, caro Joel Zito Araújo, que em tempos de Big Brother Brasil, seja a hora de A Negação do Brasil 2, o que acha?

Selecionado para diversos festivais internacionais, o documentário fez bastante sucesso no Brasil, principalmente dentro da comunidade acadêmica. Ao longo dos seus 91 minutos, o cineasta dirige muito bem o seu roteiro, montado com o auxílio do editor Adrian Cooper, brilhantemente guiado através dos depoimentos emocionantes de Milton Gonçalves, Maria Ceiça, Zezé Motta, Léa Garcia, Ruth de Souza etc. Um filme que vai demorar muito tempo para envelhecer, infelizmente.

Cores e Botas

Privilegiados chamarão de vitimização, mas por que será que a representação negra nos programas ao estilo “Xuxa” sempre foi praticamente nula? Questionamento que vem na esteira da percepção de que estamos falando de uma atração exibida num país de contingente populacional tão multicultural?  Há algo muito racista nesta história. A dançarina “Bombom”, conhecida por sua postura lasciva e sensual, com figurino diferenciado das “Paquitas”, talvez seja a única referência que temos dentro desse espaço de representação.

No campo da literatura brasileira, algo muito parecido pode ser encontrado nas descrições de Isabel e Ceci em Loura ou Morena, quinto capítulo do romance O Guarani, de José de Alencar, trecho onde o escritor descreve as características da europeia pura, tratada por adjetivos conectados ao “puro”, enquanto no caso da mestiça, traçou um extenso vocabulário crítico, abordado numa lógica bem preconceituosa.

Sendo assim, Bombom, com toda sua exuberância, semelhante ao molejo de Isabel, era uma dançarina tratada tal como a mulher negra fora retratada ao longo da história midiática brasileira, herança de Rita Baiana e outras personagens do nosso rico e extenso panorama literário: objeto sexual ou alguém atrevida e exibida, adjetivos que presenciei ao longo da minha juventude enquanto espectador dos programas da apresentadora loira, exibidos nas tardes de sábado na televisão aberta, na sala de casa, juntamente com a parcela branca e privilegiada da minha família.

Essas pessoas geralmente se posicionavam de maneira racista e, em quase todos os casos, nunca se deram conta disso, tamanha a extensão desta celeuma, espalhada como um rizoma em nossas práticas cotidianas. Creio que todos conseguiam imaginar Bombom como uma dançarina responsável pelos closes sensuais da câmera que a transformava em objeto para o telespectador, público que jamais a conseguiu olhar com o aspecto angelical das garotinhas meigas e brancas que acompanhavam a apresentadora da atração.

Para refletir sobre o assunto, creio que seja viável conferir o curta-metragem Cores e Botas, lançado em 2010, pela cineasta brasileira Juliana Vicente. No roteiro há a história de Joana (Leonardo Campos), uma criança que tal como as tantas meninas que consumiam os produtos da televisão aberta dos anos 1980, sonhava em ser uma das paquitas do Show da Xuxa. A família assiste ao desejo um tanto reticente, pois mesmo diante da casa de porte médio, Joana carrega em suas características físicas a pele negra e o cabelo crespo, elementos que não dialogam com os padrões da atração exibida durante muitos anos na Rede Globo de Televisão.

Certo dia, a garota informa que fará o teste para a seleção das novas coadjuvantes do programa da apresentadora Xuxa. O irmão tece críticas, mas o pai repreende, alegando que na época dele, ninguém criticava o seu interesse pelo programa do Fofão. Mesmo ciente das possibilidades parcas, Joana se inscreve e parte para a seleção. No local, as ironias e deboches pululam constantemente, com perguntas do tipo: “será que teremos uma paquita exótica?”, “a sua mãe deixou você fazer o teste, mas você nem parece paquita?”.

Há um momento que Joana cola diversos pedaços de fita amarela na cabeça, interessada em se parecer tanto com as moças que parecem delinear o que a TV insiste em apontar como padrões de beleza. O que Joana precisará compreender, tão logo, é que para se sentir bonita não é preciso necessariamente ser loira, uma lição tratada de maneira poética pela cineasta Juliana Vicente.  No desfecho, realista, haja vista a noção do preconceito comum ao programa em questão, Joana arranja outra forma de significar a sua existência: a fotografia.

Para contar a história, a cineasta consegue emular bem os anos 1980: há uma cena com a família a assistir o famoso debate entre Lula e Collor, caso famoso de manipulação na história política brasileira; a direção de arte, assinada por Regina Célia Barbosa, cuidadosa, resgata objetos de cena valiosos para o mergulho histórico, juntamente com a peculiar cenografia da casa onde reside Joana e seus familiares.

Cores e Botas faz uma reflexão é muito valiosa. Provavelmente inspirado na trajetória da própria cineasta, o curta-metragem aponta o dedo para a falta de responsabilidade de um dos maiores ícones de diversas gerações de garotas brasileiras, isto é, a apresentadora Xuxa, celebridade que há alguns anos foi criticada por seu fetiche pela pobreza, ao fazer uma selfie com meninos negros num semáforo enquanto se deslocava de carro para realização de sua programação cotidiana. Representação da padronização típica da TV Globo, também responsável por criar outros “produtos fabricados”, tal como a língua portuguesa estática e “ideal” falada por William Bonner, Xuxa e sua equipe de produtores teceram, durante longo tempo, uma malha de exclusão e preconceito que fez muita garota negra, gorda e indígena sentir-se alijada da dinâmica social, alvos constantes de bullying e violência de outros tipos.

A Invisibilidade do Negro na Educação

Há algo de muito verdadeiro em A Invisibilidade da Identidade Negra na Educação. Após assistir ao documentário, notável nas discussões sobre a presença do negro na educação brasileira, rememorei alguns debates fervorosos com profissionais de ensino no que tange aos momentos de coordenação pedagógica e seleção de temas para projetos educacionais. Num dos mais memoráveis, uma professora insistia na beleza e eficiência do romance A Escrava Isaura, de Bernardo de Guimarães.

Havia na educadora uma postura de resistência ao se permitir propor dialogar com os poemas e contos da coletânea Cadernos Negros, abordagem mais otimista e sem o olhar eurocêntrico em relação ao negro na história literária.  É o mesmo discurso dos profissionais de ensino que desejam refletir a trajetória indígena apenas com a leitura de Iracema, O Guarani e Ubirajara, “trilogia indianista” do romântico José de Alencar.

Na contra os romances apontados, mas é preciso que os professores e gestores saiam do viciado “plano subjetivo” que só enxerga o que bem quer, para olhar tais questões sob o prisma do plano geral, seguido de um travelling por outras possibilidades de abordagem do negro e do indígena na história da formação do Brasil enquanto nação. A Invisibilidade da Identidade Negra na Educação flerta com tal abordagem, sendo mais um dos produtos audiovisuais preocupados em debater um problema que aparentemente não tem fim.

O Brasil, como apontam as estatísticas e as notícias cotidianas, é um país de forte tensão racial. A ideia de um caldeirão multicultural sem a presença da violência física e simbólica no que tange ao posicionamento das posturas racistas diárias existe apenas para os que vivem no mundo da imaginação ou não acreditam que estamos inseridos no que Benedict Anderson chamou de “comunidade imaginada”.

O documentário A Invisibilidade da Identidade Negra na Educação, dirigido e escrito por Taís Amordivino, cineasta de uma nova geração de intelectuais negras na Bahia, reflete a questão racial por meio dos meandros da educação, reiterando como ainda estamos distantes de uma abordagem da cultura afro-brasileira menos focada em estereótipos e “coisificações”, oriundas do discurso hegemônico. Assim, a produção levanta questionamentos sobre as cotas, traça um paralelo entre educação pública e privada, dentre outros tópicos pertinentes ao tema geral.

Com tom leve e depoimentos sutis, a produção traz estudantes negras em reflexões sobre o que desejam ser e como a sociedade não as deixam sonhar adequadamente, haja vista a ausência de referências para espelhamento. Entre os comentários das estudantes, a narrativa trafega entre o elucidativo depoimento da psicóloga Tainan Purificação, responsável por destacar a tal “falta de referências e os perigos da violência velada” e as colocações do professor Walter Passos, intelectual que problematiza “os livros didáticos sem a devida abordagem da cultura negra”, além da dificuldade em fazer a lei 10.639/05 funcionar.

Para Walter Passos, professor de História, importante componente curricular da grade educacional, há falta de abordagem mais substancial da religião africana, pois o que geralmente se encontra é a visão eurocêntrica da África, bem como a lacuna na história anterior ao continente sem a presença do explorador. A crítica, apesar de muito pertinente, pode também ser entregue aos professores, desinteressados em ir buscar tais itens para a devida discussão em sala de aula. O depoimento da estudante Lilian Santos traz isso muito bem delineado, pois reforça que há métodos muito questionáveis por parte de muitos educadores.

Esteticamente, A Invisibilidade da Identidade Negra na Educação se apresenta como material de iniciante, o que não deixa de ser interessante enquanto discussão, bem como ensaio para produções posteriores, tais como o poético Motriz, lançado este ano e com aceitação em festivais brasileiros e até mesmo internacionais. Igor Correia (áudio) e Danilo Garcia (fotografia) poderiam ter se empenhado mais em seus respectivos trabalhos, dando ao editor Luiz Henrique Pereira material audiovisual relativamente mais interessante para a finalização.

Os créditos iniciais pedem uma revisão de ordem gramatical, importante para a circulação do filme nos espaços que mais interessam, isto é, escolas, faculdades, congressos e seminários que abordem diretamente ou tangenciem o assunto.  Taís Amordivino, provavelmente envolvida apaixonadamente pelo assunto, deixa gravitar em seu roteiro algumas falhas minuciosas, também não prejudiciais na transmissão da mensagem, mas caso fossem “corrigidas”, garantiriam um documentário com maior potencial cinematográfico, não servindo apenas como panfleto sobre as práticas cotidianas de racismo na educação.

Uma das “falhas” é a ausência de depoimentos mais variados, algo que ampliaria a reflexão. No entanto, como apontado anteriormente, o filme funciona como um ensaio, uma provocação bem sucedida para um tema bastante debatido, porém praticado sem a devida eficiência nas dinâmicas cotidianas de sala de aula.

Antônia

O cinema brasileiro sempre teve interesse pelos “excluídos”. Cidade de Deus, Carandiru, Última Parada 174 exemplificam, além da análise social de Nelson Pereira dos Santos em Rio, 40 Graus e Rio, Zona Norte, dentre tantas produções documentais e ficcionais sobre existências que trafegam pela vida em luta constante com a relação assimétrica entre a elite privilegiada e os silenciados ao longo da história da nação brasileira, “comunidade imaginada” que se ergueu com base na colonização errônea dos portugueses.

São muitas as narrativas que ilustram as mazelas da população pobre das favelas e da periferia dos quatro cantos do Brasil. Antônia, lançado em 2006, é uma das histórias edificantes que exploram esse universo. O resultado é aceitável, apesar de alguns pormenores narrativos que prejudicam o filme. Ao longo de seus 90 minutos, o filme é didático ao delinear questões de gênero em espaços que geralmente são apresentados numa perspectiva masculina no que tange ao protagonismo, a história emociona e demonstra como a questão do preconceito e da exclusão é ainda muito contemporânea, uma celeuma brasileira longe de ser regularizada.

Dirigido por Tata Amaral, cineasta constantemente preocupada com questões de gênero, também responsável pelo roteiro, em parceria com o escritor Roberto Moreira, Antônia expõe estilhaços dos universos de quatro jovens em busca de uma vida digna. Por dignidade, leia-se: ser respeitada ao fazer música na favela, atuar com hip-hop, gênero musical geralmente vinculado ao “masculino” como agente autoral. Na história, conferimos a união de Preta (Negra Li), Lena (Cindy Mendes), Barbarah (Leilah Moreno) e Maya (Quelyna), jovens negras de Brasilândia, zona periférica de São Paulo.

Com uma lista de problemas enorme para refletir, tais como gravidez, maridos infiéis e autoritários, violência e preconceito social, fome e habitação, dentre outras questões que acometem o quarteto protagonista, a cineasta precisa ser muito ágil ao abordar cada elemento que surge dos conflitos do roteiro, o que torna a sua tarefa hercúlea e em alguns momentos, relativamente bem sucedida, caso não enumeremos os problemas narrativos que não chegam a atrapalhar o desenvolvimento da história.

Narrado em off, para depois aparecer diegeticamente, a voz de Thaide revela o cotidiano sofrido, mas esperançoso das personagens. Como sabemos pela divulgação na época, o filme funciona como uma espécie de piloto, pois conflitos e situações passageiras, tal como a mãe de uma das garotas, interpretada por Sandra de Sá, desenvolve-se depois na versão televisiva, numa demonstração do constante consórcio entre TV e Cinema no Brasil, independente do ponto de partida e da chegada, pois ambos estão imbricados na produção mainstream contemporânea.

Tecnicamente, a narrativa é conectada ao estilo documental. A direção de fotografia de Jacob Solitrenick faz seus milagres ao atravessar becos, vielas e escadarias íngremes trafegadas pelas personagens em suas jornadas diárias. A direção de arte de Rafael Ronconi é outro ponto forte, pois consegue emular as necessidades dramáticas das personagens e seus perfis por meio de objetos e cores bem selecionados. A trilha, assinada por Beto Villares, é bem conduzida, adorno para a edição cuidadosa e dinâmica Idê Lacreta.

Salvas as devidas proporções, Antônia é como Sex And The City, um quarteto de mulheres em busca de alcance das metas estabelecidas em seus sonhos. No entanto, diferente das necessidades das personagens brancas estadunidenses, isto é, mulheres bem sucedidas financeiramente, consumistas e constantemente questionadoras, privilegiadas dentro de um determinado ponto de vista, as jovens negras da narrativa brasileira lutam para ter acesso, direito e manutenção do básico, ou seja, comer, beber e viver, além do exercício de suas respectivas cidadanias, numa trajetória cheia de obstáculos.

Filhas do Vento

Depois do prestígio alcançado com o documentário A Negação do Brasil, o cineasta Joel Zito Araújo investiu em um projeto que trouxesse os mesmos conflitos do material documental, mas desta vez, no formato ficcional. Da ideia nasceu Filhas do Vento, um filme interessante e importante para a história recente do nosso cinema, mesmo que a sua narrativa seja cheia de conexões indevidas com o que se convencional chamar de linguagem televisiva.

Ao assumir direção e roteiro, o realizador nos oferta uma história de rancor, amor, família, sonhos e perdão, com camadas generosas de críticas ao racismo, situada em Lavras Novas, interior de Minas Gerais, cidade que fica a 19 quilômetros de Ouro Preto, espaço que já foi cenário para outra obra ficcional, A Garganta do Inferno, de Bernardo de Guimarães, o mesmo autor do famoso e polêmico romance A Escrava Isaura.

Com sua população majoritariamente negra, a cidade fundada por volta de 1716 possui laços estreitos com histórias de racismos e ecos da escravidão, temas que permeiam Filhas do Vento através dos diálogos dos personagens em constante confusão. A história começa com o encontro entre as irmãs no enterro de Zé das Bicicletas (Milton Gonçalves), pai das senhoras. Este reencontro é marcado por muita tensão, pois ambas não se comunicam há 45 anos.

O título do filme é uma alusão ao que o personagem de Milton Gonçalves chama de “filhas do vento”, mulheres que não fincam as suas raízes, teimosas e interessadas em suas “tramas”, consideradas “irreais” pelos mais céticos, neste caso, ele mesmo, homem grosseiro, machista e ignorante.

Cida (Tais Araújo) e Ju (Thalma de Freitas) são as suas filhas. Ao contrário da irmã mais nova, Ju, Cida não se interessa pela vida no interior e sonha em ser atriz, graças aos românticos enredos das radionovelas que escuta durante a noite. Certo dia ocorre um mal entendido entre as irmãs. O pai, mais distante de Cida por conta da sua aparência com a mãe, mulher que no passado também foi dona de seu destino, acaba castigando a mais velha. Para piorar, a mais nova sequer assume a culpa do problema causado.

Entre idas e vindas, temos Ju, isto é, Dona Maura da Ajuda (Léa Garcia), mulher recebe a irmã no enterro do pai. Há tempos que ela só a via pela televisão, tendo em vista o conflito do passado. Tia Cida (Ruth de Souza), atriz que como os personagens do documentário A Negação do Brasil, também sofre os preconceitos de ser mulher negra na televisão brasileira, tem uma filha que é carrega vários conflitos por não ter conhecido o pai e cuida da sobrinha, filha de Ju, uma criatura totalmente distante do estilo de vida daquelas pessoas comuns do interior, numa postura comportamental bem parecida com a da sua tia.

Dentro deste ciclo de situações não resolvidas, elas precisarão encontrar uma forma de diálogo que dê um fim em suas “metralhadoras cheias de mágoas”. E para isso o filme conduz o espectador bem. A edição de Isabela Monteiro consegue conectar bem os tempos da história, mas o que deixa a trama balanceada na análise é mesmo o seu conteúdo. Há certo domínio da linguagem cinematográfica em alguns trechos, principalmente nas transições temporais, mas os enquadramentos e a direção de arte de Andréa Veloso parecem “sem ânimo”, formais demais ou apenas colocados para registrar uma história que tem o seu foco na postura militante do roteiro.

“Sou um novo estereótipo: figurante de filme do Spike Lee”, diz um personagem, enquanto outra profere que a sua mãe consegue alguns trabalhos na televisão, “uma escrava aqui, uma empregada ali, figuração em um terreiro de candomblé”. São louváveis as falas, parte de uma reflexão importante para um país como o Brasil, terreno onde o racismo é dissimulado, diferente, por exemplo, do caldeirão de tensões comuns aos Estados Unidos, presentes em tramas do referenciado Spike Lee.

O problema não está, entretanto, em militar, mas em como o debate é estabelecido sem parecer acadêmico ou oriundo de cenas que parecem leitura dramática, literais, entoadas como num palco de teatro ou aula de literatura, isto é, como se estivéssemos escutando um texto escrito, sem a presença das emoções que devastam tais personagens pertencentes a um tecido narrativo tão cheio de conflitos. Por ter flertado durante tanto tempo com a dramaturgia televisiva em suas incursões intelectuais, Joel Zito Araújo traz este arsenal de gestos novelísticos que comprometem a trama enquanto cinema. No que diz respeito ao terreno conteudista, entretanto, o filme não oferece problemas, é até bem didático, o que pode agradar aos interessados em utilizá-lo como ferramenta pedagógica. Como dito por um crítico na época do lançamento, “não é preciso verbalizar o discurso político quando este já está visível”. Acho taxativo, mas de certa forma coerente. E você, caro leitor, o que acha?

A obra foi alvo de polêmica na 32ª edição do Festival de Gramado, em 2004. O crítico Rubens Ewald Filho, presidente do júri, alegou que os prêmios entregues ao filme faziam parte de uma agenda sociopolítica, algo aparentemente recorrente na contemporaneidade, época do pagamento de dívidas históricas. Acredito que haja um meio termo, mas é preciso pensar na colocação, pois ao menos o crítico foi sincero em seus apontamentos, sem necessariamente ter sido racista. Descuidado e tosco, talvez, haja vista a forma como levantou a polêmica. Independente dos problemas, Filhas do Vento passou por diversos festivais ao redor do Brasil e ganhou muitos prêmios de direção e desempenho dramatúrgico para alguns membros do elenco.

O Xadrez das Cores

Abandono e tristeza. O idoso como um fardo. Racismo e opressão. Se O Xadrez das Cores fosse um trabalho acadêmico, estas poderiam ser as palavras-chave. Lançada em 2004 e premiada em muitos festivais de 2005, a produção dirigida e escrita por Marco Schiavon nos apresenta Cida (Zezeh Barbosa), uma mulher negra na faixa dos 40 anos, funcionária de Maria (Mirian Pyres), uma senhora de 80 anos que representa a metonímia dos antepassados colonizadores: manipuladora, racista e muito preconceituosa.

Para enfrentar a sua empregadora, Cida propõe um jogo de xadrez, situação alegórica utilizada pelo roteiro para os devidos efeitos reflexivos em relação aos temas centrais (racismo e pobreza) e tangentes (superação de desafios, abandono e velhice, solidão). O filme também flerta com a submissão de muitas pessoas aos trabalhos que podemos designar como subempregos, tamanha a falta de boas condições de atuação. Cida, cotidianamente, precisa lidar com o preconceito e cinismo de Maria, uma senhora que tal como a “empregada”, também tem uma marca profunda do passado que ressoa constantemente no presente: a perda da filha.

Desta maneira, ambas serão desafiadas num enfretamento metafórico por meio de um jogo de xadrez, num debate sobre os obstáculos e desafios encontrados por dois segmentos da sociedade que são alvos de discriminação cotidianamente: o idoso e a mulher negra. Ao passo que a história avança, Cida e Maria deixam espaço para que o público as interprete adequadamente. Assim, compreendemos as suas necessidades dramáticas, delineadas por conta de seus perfis de ordem física, psicológica e social.

Sem adquirir uma postura extremamente maniqueísta, ambas as personagens possuem traços de valor, devidamente aproximados e distanciados ao longo da evolução do enredo. Com uma abertura criativa, adornada pelos créditos artisticamente conectados com a temática da narrativa, O Xadrez das Cores segue para os diálogos objetivos de sua história. Há momentos inadequados, tal como a condução musical de José Lourenço, excessivamente melodramática, além do didatismo do roteiro, um pouco “acima do necessário”, elementos que não chegam a comprometer a “mensagem” do curta-metragem, mas que tornam a produção um exercício médio de linguagem cinematográfica.

Visualmente aprimorada, a narrativa traz Irene Black na direção de arte, cuidadosa na construção da ambientação doméstica onde o jogo de xadrez se desenvolverá. Gilberto Otero cumpre bem a sua função na direção de fotografia, funcional na captação de alguns detalhes, tais como gestos e olhares das personagens, fluídos na montagem de Fábio Gavião.

Debates sobre “Jesus ter sido um homem de olho claro” e “xadrez ser um jogo que preto só conhece na delegacia”, juntamente com cenas externas ilustrativas, de crianças “duelando” com armas de brinquedo na rua, enquanto Cida segue para o trabalho, nos revela o caráter de denúncia da narrativa, pouco discreta, mas longe de “gritar” para o público a sua mensagem. A personagem, longe dos arquétipos de coitadismo, distancia-se da vitimização para assumir uma postura de enfrentamento e embate, questionando o seu lugar dentro da sua própria história.

Sendo assim, em seu desfecho, O Xadrez das Cores deixa claro que o preconceito pode ser pensado como uma espécie de subproduto do racismo, representado na narrativa pela hostilidade sofrida por Cida no bojo do relacionamento interpessoal com Maria. Como sabemos, o racismo se revela quando um grupo (Maria, branca) afirma que outro (Cida, negra) é inferior ao seu, pautado por atribuições de características negativas que pretendem reforçar a invalidez do “outro” em relação ao “eu/nós”, modelo de relação de poder legitimada por eras na formação do povo brasileiro e ainda muito vigente na contemporaneidade, às vezes disfarçadamente, noutras escancaradamente estampada, para todo mundo ler, ver e interpretar.

Os 12 Trabalhos

A trajetória de Hércules na mitologia grega é árdua, mas ele é dotado de algumas capacidades sobre-humanas que o permite ascender em sua caminhada repleta de desafios. Dentre as missões de sua penitência, séries de episódios que formam uma narrativa amarrada, ele precisa estrangular um leão peculiar, matar um monstro de várias cabeças, enfrentar um touro que lança chamas, dentre outros desafios complexos. Na versão brasileira, comandada por Ricardo Elias, o nosso herói recebe um feixe de missões, todas enfrentadas arduamente pelos corredores de São Paulo, espaço cênico que se comporta como um personagem.

Com roteiro assinado por Ricardo Elias, em parceria com Hilton Lacerda, Claudio Yosida, Arthur Autran e colaboração de Luís Alberto de Abreu nos trechos de narração, em termos de premissa, Os 12 Trabalhos é objetivo. A trama nos apresenta Héracles (Sidney Santiago), jovem negro da periferia que saiu recentemente de um programa correcional, haja vista o seu envolvimento com tráfico no passado. Ele agora busca a sua redenção, a liberdade almejada para sair da condição opressora que o levou para os caminhos da marginalidade. Quem o ajuda é o primo Jonas (Flávio Bauraqui), amigos desde a infância e uma das pessoas que mais confiam no potencial do rapaz.

A oportunidade que surge é o trabalho como motoboy. Para demonstrar capacidade na execução dos serviços, Héracles é designado a realizar 12 tarefas, tal como o mito grego, no filme, transformado em 12 entregas, cada uma com sua dose de dificuldade, todas num único dia. Se conseguir, ganhará a vaga e terá alguns “privilégios”. Uma das necessidades dramáticas do protagonista é o seu desejo de corrigir a imagem anterior, numa busca incessante pelo devido exercício da cidadania. O trajeto, no entanto, não será fácil, pois Héracles precisará lidar com preconceitos, burocracias, grosserias e outras celeumas típicas dos relacionamentos humanos.

Ele é um dentre tantos jovens em condições desastrosas em nosso cotidiano. A sua luta e o trabalho a que é submetido, isto é, a função de motoboy, apresenta ao público o que muitos já sabem: a execução do trabalho sem oferta de segurança, a ausência de direitos trabalhistas, a precariedade das condições de deslocamento, dentre outros fatores internos e externos que refletem na saúde de tantos jovens em busca de oportunidades num sistema cada vez mais sufocante. Em sua jornada, precisará enfrentar leões, alegoricamente, mas nada que não seja desafiador. Dentre os desafios, há a moça que deseja ser modelo, a senhora aposentada e seu gato, o idoso solitário que lhe paga para ser companhia na busca por exames, etc.

A trilha sonora de André Abujamra entrega o clima musical ideal para o contexto, acompanhamento das imagens que captam a cenografia e direção de arte, assinadas por Patrícia Peccin e Ana Mara Abreu, respectivamente. Para nos contar essa história, Carlos Jay Yamashita desenvolve um apurado trabalho na direção de fotografia. Os seus filtros indicam o caos e a sujeira das zonas paulistas radiografadas pelo enredo. A fotografia, cabe ressaltar, é um dos elementos que contribui com a transformação de São Paulo, um espaço que se assemelha a um organismo vivo, intenso, febril, caótico e prestes a explodir de tanta tensão.

Em seu filme de estreia, Ricardo Elias já deixava tais questões latentes, com as vias urbanas apresentadas aos espectadores de maneira caótica. Em Os 12 Trabalhos, ele amplia as dimensões de circulação dos personagens em meio aos seus conflitos. Héracles, em busca por sua redenção, desenha as histórias que vive em seu caderno, como estratégia para desanuviar e evitar, assim, sucumbir diante de tantos problemas. Num diálogo com a atualidade, o filme retrata uma situação que desde o seu lançamento, não mudou para melhor, pois a precariedade do ambiente de trabalho ainda é gritante.

Última Parada 174

Uma história inspirada em acontecimentos polêmicos e tensos, envoltos numa atmosfera de intensa crítica social, mas contada no bojo da ficção de maneira pouco magnética. Foi assim que a Última Parada 174 teve a sua recepção em minha primeira incursão, numa opinião que continua amalgamada tantos anos depois. Bruno Barreto, cineasta experiente na seara da produção brasileira, homem de tantos acertos no passado, dessa vez, deixou bastante a desejar.

A trama todo mundo praticamente já conhece. Um jovem infrator, chamado Sandro do Nascimento, com passado urdido em meio ao ambiente violento da favela, bem como a experiência da chacina da Candelária e outras celeumas sociais tipicamente brasileiras, toma um ônibus de assalto no Rio de Janeiro, no ano 2000, faz reféns e termina a sua trajetória de maneira trágica, levando consigo uma vítima que sequer imaginava participar de uma trama com personagens sociais tão incapacitados para lidar com conflitos humanos, isto é, “a despreparada polícia nossa de cada dia”.

O plano circular em torno da estátua do Cristo Redentor já nos situa no tempo e espaço onde a história de violência física e psicológica se desenvolverá: o fervilhante centro urbano carioca, cartão-postal para turistas e ponto demarcado no mapa da violência brasileira. Transmitido em rede nacional e em canais internacionais, o evento de grande repercussão é um dos maiores exemplos da negativa influência midiática no desenvolvimento de parte da opinião pública.

No documentário de José Padilha a história envolve e se destaca pelo nível de perplexidade que ficamos diante dos depoimentos colhidos, mas na seara ficcional, a tentativa oportunista de recriar a trama e inserir personagens para ampliar o feixe catártico da narrativa não ajudou, ao contrário, tornou o filme uma história visualmente interessante, mas dramaticamente estéril. A professora Geysa, por exemplo, uma das grandes vítimas da história, tem a sua trajetória anulada.

O que interessa a dupla formada por Bruno Barreto e Bráulio Mantovani é a suposta crítica social ao alijamento que tornou Sandro do Nascimento, aqui interpretado por Michel Gomes, um bandido perigoso. O ator entrega um desempenho dramático de grande esforço, haja vista o texto impreciso e a construção de um personagem esférico apenas porque sabemos da trama narrada por vias documentais na produção de José Padilha. O Sandro de Mantovani, no entanto, carece de empatia, o que nos distancia da catarse.

Tudo acontece muito velozmente, o que impede o processamento dramático do espectador diante do que é apresentado. Sandro é o único membro da plateia de um espetáculo de sangue peculiar: o assassinato de sua mãe. Ele tenta viver dignamente com a tia, mas o marido da tal senhora não está interessado em abrigar o jovem em sua residência, o que faz Sandro se afastar e ganhar a vida nas ruas. Em poucos cortes, já nos deparamos com a chacina, com a primeira incursão sexual de Sandro, com os pequenos delitos e com a ida para o reformatório, local que trata de lhe arranjar um algoz logo de cara, para na cena seguinte, transformá-lo em melhor amigo.

Juntos, a dupla sai da cadeia e parte para uma vida de crimes e farra. Certo dia um assalto dá errado e a dupla se separa. O Alê Monstro (Marcello Melo Jr.), versão demonizada do personagem de Sandro, metáfora para o seu contraste angelical, criatura existente apenas na seara ficcional, torna-se por instantes o mentor de Sandro. É quem lhe ensina a matar e lutar para sobreviver na vida que ambos escolheram para si, ou como aponta o determinismo social do filme, a sobreviver diante das oportunidades que lhe são concedidas. Tal como os personagens do cortiço grotesco de Aluísio de Azevedo, Sandro e Alê são “frutos do meio”.

Diante do exposto, finalizo a reflexão reiterando que Última Parada 174 é um filme sem emoção que, ao adentrar num esquema narrativo desgastado, sem trazer um ponto de vista que acrescente algo ao assunto que na época, era parte de uma memória ainda muito recente e intensa, reforça o estereótipo da violência nas favelas, uma das temáticas prediletas dos filmes da chamada pós-retomada. Uma história que passava por um processo de cicatrização social encontra no esquemático roteiro de Bráulio Mantovani mais “um dedo na ferida”. O que podemos perceber é que faltou maior engajamento. Sobrou apropriação. Em resumo: um filme sem coesão interna e usuário de metalinguagem sem as devidas referências, isto é, um equívoco cinematográfico.

A postura dos realizadores nos remete ao que a pesquisadora Denise Silva Macedo reflete em Discursos nas Práticas Sociais, elucidativo livro que envolve o campo da comunicação social numa perspectiva crítica.   Ela afirma que a mídia se apodera de um suposto discurso neutro, aparentemente interessado em informar, de maneira objetiva, os fatos. A “informação-serviço” se confunde com a “informação-produto”, ou seja, tudo se torna objeto de venda de audiência, tendo a notícia como “valor de mercado”.

Levado para o campo do cinema, os realizadores de Última Parada 174 investem na mesma postura, interessados talvez na repercussão financeira de uma história que tem a polêmica como eixo gravitacional. Num cínico e entediante ponto de vista narrativo, construído com base em imagens já prontas em arquivos de dados da mídia brasileira, o filme se ergue em meio ao infértil roteiro que provavelmente agrada apenas aos que flertam com a linguagem dramática das produções da Rede Globo.

Sobre o roteiro, há alguma humanização na assistente social Walquiria (Ana Cotrin) e uma necessidade dramática convincente no desenvolvimento de Marisa (Cris Vianna), mas como já apontado, a obviedade de outras situações e falta da mínima complexidade de outros personagens tornam o exercício narrativo pífio. Conforme relatos de entrevistas na época do lançamento, o cineasta afirmou que “ele e o Bráulio usaram a realidade só como ponto de partida, pois a proposta desde o início era a reflexão emocionada da realidade que deu origem a história”. As intenções foram as melhores, caro leitor, mas como reitera a fala popular, de boas intenções o inferno está cheio.

Maré – Nossa História de Amor

Abelardo e Heloísa. Tristão e Isolda. Dé e Nina. Ah, e Romeu e Julieta, uma das peças teatrais mais famosas de um dos maiores dramaturgos da história, segundo o crítico literário Harold Bloom e os seguidores do cânone literário ocidental. Entre 2007 e 2008, a história de amor entre famílias rivais e amores “impossíveis”, ganhou duas traduções intersemióticas (termo adequado para adaptação, tendo em vista que dentro do campo semiótico, a história sai de um suporte e se apresenta em outro). Era Uma Vez e MaréNossa História de Amor.

A primeira, um drama urbano situado entre a favela e a elite do Rio de Janeiro trouxe elos mais distantes com a peça em questão, mas não deixou de ser assumidamente uma releitura. No caso da história situada na favela Maré, local que há décadas começou como palafitas e passou por um processo de urbanização que aumentou vertiginosamente a sua população, e por sua vez, as tensões sociais, a pobreza e o tráfico de drogas, a presença de Shakespeare é mais notável, pois é citado em algumas passagens e possui um roteiro mais debruçado na tragédia renascentista.

Dirigido por Lúcia Murat, profissional que também assina o roteiro, em coautoria com Paulo Lins, Maré – Nossa História de Amor nos traz a história de amor entre Analídia e Jonatha. Eles desejam ser dançarinos e é numa ONG que ensina dança para pessoas carentes que eles se encontram. Ambos sabem os perigos de assumirem um relacionamento. Ela é uma garota de 16 anos, cheia de sonhos, prima do chefe do tráfico de um dos lados da favela. Ele, morados do outro lado, é um representante cultural do espaço, atua como MC e ainda é estudante de dança, o que desagrada o seu irmão, uma das pessoas que não o apoia. O rapaz ainda tem o sonho de gravar um CD. Amigo de infância de Dudu (Babu Santana), chefe do tráfico de um dos lados da favela.

Nessa história temos a intermediária entre a favela e o “outro” lado da cidade. É Fernanda (Mariah Orth em ótimo desempenho), bailarina no passado que aceita trabalhar com os jovens, mesmo que sem muito interesse inicialmente, mas ao passo que seu personagens evolui, ela se integra aos jovens e consegue dar corpo aos seus projetos no local, sempre no fogo cruzado entre os lados rivais, na tentativa de conseguir realizar algo diante de uma realidade tão desoladora.

Os traficantes responsáveis por estabelecer os conflitos na trama são Bê (Jefchander) e Dudu, o já citado Santana, um dos melhores desempenhos dramatúrgicos do filme. No auge da sua juventude, Bê tem 20 anos e disputa o lado esquerdo, enquanto Dudu, líder do lado direito, é conhecido por seu comportamento destemperado e violento, o que ocasionalmente causa medo em algumas pessoas, exceto em Jonatha, rapaz que ele trata com carinho e esmero.

Alguns comentaram que os números musicais que comentam o que a cena em si já nos faz experimentar surge como um ruído narrativo. Prefiro discordar e ver como uma espécie de metáfora para o coro da tragédia, elemento cheio de significação e que não incomoda em nada. Ao passo que os 104 minutos avançam, você se afeiçoa pelo lado dos vermelhos (Analídia) e dos azuis (Jonatha), mergulha num caldeirão de representações culturais com direito a hip-hop, grafite, dança de rua e o prólogo do texto clássico recitado por rappers em um trecho, organizado dentro da montagem tão eficiente quanto a direção de arte.

Romeu e Julieta pode ser considerado um daqueles textos que parece ser adaptável para qualquer contexto, talvez por isso, seja tratado como “universal”, termo visto com desdém pelos estudos literários oriundos de correntes teóricas mais contemporâneas, mas o fato é que só no cinema brasileiro, a história de amor já apareceu diversas vezes. Em 1935, no Rio de Janeiro, a sua primeira versão foi levada aos cinemas, num formato curto com película preto e branco e 35mm. Como muitos registros do começo de nossa história cinematográfica, este é mais um de que só se tem notícias por documentos e críticas.

Em 1961, O Candango da Belacap, um dos ícones da chanchada, também se entregou ao texto de Shakespeare e trouxe a famosa cena da sacada, num tom paródico. Outras iniciativas já emularam a obra, tal como a comédia O Casamento de Romeu e Julieta e alguns programas televisivos, mas poucos tiveram a faceta crítica do romance musical ao estilo Amor Sublime Amor. Lúcia Murat, cineasta corajosa e militante no que diz respeito ao cinema autoral no Brasil, fez muito bem o seu trabalho.

O filme estreou comercialmente em abril de 2008, mas em 2007 passeou por alguns festivais, por sinal, muito premiado. Um crítico escreveu na época que se tratava de uma história de balas e beijos. A paródia com a música popular é interessante e certeira, pois o filme tem bastante disso. Entre beijos acalorados e desejo de mudança, há uma crítica social que descortina os males da política, da cultura e da educação no Brasil. Há o traficante “gente boa” que ajuda com dinheiro, mas no fundo os seus interesses territoriais falam mais alto. A fuga de Analídia e Jonatha não é apenas explosão dos hormônios da juventude, mas na verdade, representa uma vida longe daquela realidade, algo que nem sempre os jovens têm a oportunidade de escapar. Triste favela!

Anote as nossas dicas e até a próxima, combinado?

Leonardo Campos é Graduado e Mestre em Letras pela UFBA.
Crítico de Cinema, pesquisador, docente da UNIFTC e do Colégio Augusto Comte.
Autor da Trilogia do Tempo Crítico, livros publicados entre 2015 e 2018,
focados em leitura e análise da mídia: “Madonna Múltipla”,
“Como e Por Que Sou Crítico de Cinema” e “Êxodos – Travessias Críticas”.

Continue Lendo

Educação e Reflexão

Na sala de aula (e no Youtube) com Conceição Evaristo

Foi selecionado 10 vídeos da autora das escrevivências, disponíveis em plataformas de acesso gratuito

Publicado

em

Leonardo Campos

O vídeo é um excelente recurso pedagógico, principalmente quando nós, espectadores, na posição de mediador do ensino, conseguimos extrair os pontos de reflexão necessários para o empreendimento do debate em sala de aula. Ainda há, em nossa cultura, a exibição de vídeos motivadores no contexto da educação, geralmente com algum comentário ou provocação básica para a promoção de um debate. Não digo que essa postura seja inválida, mas acredito que nós, professores, precisamos ir um pouco além, relacionando o que é narrado pelo suporte audiovisual com conteúdos adicionais, atividades que estendam a interpretação para além da sala de aula, enchendo de maiores significados o ato de ensino-aprendizagem. É algo não apenas enriquecedor para os estudantes, mas para nós mesmos, enquanto cidadãos em formação constante, sempre a tirar lições daquilo que ensinamos, num processo cíclico que nos permite sair da temida estagnação, não desejável para um bom profissional de ensino.

Tendo como foco a produção literária de Conceição Evaristo, a autora das escrevivências, selecionei 10 vídeos disponíveis em plataformas de acesso gratuito. São entrevistas e programas especiais dedicadas ao projeto de escrita desta mineira que migrou para o Rio de Janeiro ainda muito jovem, permutou serviços domésticos por livros e aulas, sobreviveu ao segregante espaço urbano carioca estruturado pelo racismo que ainda é uma chaga na sociedade brasileira, graduou, fez mestrado e doutorado, tornando-se uma escritora aclamada, alguém que infelizmente é uma exceção dentro da regra geral que domina a nossa nação, habitada por muitas pessoas que ainda acreditam que vivemos o mito da democracia racial, discurso perigoso e falacioso que precisa de vozes como a de Conceição Evaristo para ser questionado.

A ideia da seleção é apresentar os vídeos e ofertar questões de múltipla escolha para a mediação entre professores e estudantes na sala de aula. Muito além de debater brevemente o conteúdo e questionar com pontos do tipo “o que você entendeu” ou “o que você acha disso”, as questões elaboradas diretamente da análise desses materiais nos permitem deixar a aula mais dinâmica, interativa, além de conectada com os caminhos atravessados pelos estudantes que saem do Ensino Médio rumo aos vestibulares, seleções de estágios, empregos, concursos, em suma, processos seletivos que reforçam constantemente este tipo de avaliação, estruturada pelas chamadas “questões objetivas”, aqui norteadoras do que se pretende discutir ao trabalhar com Conceição Evaristo em sala de aula: ancestralidade, exclusão social, desigualdade econômica, representação dos afro-brasileiros na literatura, lugar de fala, racismo estrutural, etc.

Vamos começar?

TV PUC Rio: A escrivivências na literatura feminina de Conceição Evaristo

Questão 01: após assistir ao vídeo, leia as proposições.

I – Conceição Evaristo afirma que as suas referências literárias negras eram parcas na fase estudantil, limitando-se basicamente aos textos de Cruz e Souza e Lima Barreto.

II – Mesmo que não tenha desenvolvido habilidades para canto e dança, algo muito associado aos afro-brasileiros, Conceição Evaristo afirma que seus textos são melodiosos, isto é, influenciados por sonoridades marcantes.

III – Nascida diante de limitações materiais, Conceição Evaristo revela o seu contexto de pobreza na infância, alegando que não nasceu rodeada de livros, mas de palavras, haja vista a influência da literatura oral em sua família.

Com base no vídeo selecionado e nos debates empreendidos em sala de aula, assinale a alternativa correta:

a) I e II estão incorretas
b) I e III estão incorretas
c) III está incorreta
d) I, II e III estão corretas
e) I, II e III estão incorretas.

Sugestão para reflexão: por quais motivos os livros didáticos abordam tão rapidamente as representações literárias de Cruz e Souza, Lima Barreto, dentre outros autores negros? Ademais, se Conceição Evaristo conseguiu vencer com resiliência, toda mulher negra também tem essa possibilidade? Debata meritocracia com os seus estudantes, tendo esse vídeo como base.

Ciência e Letras: Conceição Evaristo

Questão 02: após assistir ao vídeo, leia as proposições.

I – Conceição Evaristo expõe que a literatura é um lugar de expurgo e o mesmo processo que acontece com os afro-brasileiros que herdaram a escravidão também ocorre ainda hoje com a literatura judia e suas chagas do holocausto.  

II – O saber ler, segundo Conceição Evaristo, é um dos primeiros passos da formação da cidadania de alguém e que para muitos afro-brasileiros, foi e ainda é algo constantemente negado.

III – Descendente de uma cultura oralizada, Conceição Evaristo revela que a sua escrita é permeada por ficções da memória, publicações que o programa caracteriza como cheias de beleza e muita dor.

Com base no vídeo selecionado e nos debates empreendidos em sala de aula, assinale a alternativa correta:

a) I e II estão incorretas
b) I e III estão incorretas
c) III está incorreta
d) I, II e III estão corretas
e) I, II e III estão incorretas.

Questão 03

I – Conceição Evaristo crítica a visão escolarizada de cultura, ainda muito embranquecida, além de ironizar a história da libertação dos escravos, marco tido como equívoco e debatido com muita naturalidade ainda hoje, sem o espanto que deveria causar.   

II – Nas palavras da escritora, o Brasil é um país que consegue dar lições de camuflagem das temáticas sociais, num discurso que nos permite associar com os polêmicos debates sobre a utopia da democracia racial brasileira.

III – Ao colocar Ana Davenga e Maria como destaques, Conceição Evaristo versa sobre humanização de criminosos, estereótipos sobre pessoas negras supostamente mais fortes fisicamente e solidão como um dos temas de sua produção literária.

Com base no vídeo selecionado e nos debates empreendidos em sala de aula, assinale a alternativa correta:

a) I e II estão incorretas
b) I e III estão incorretas
c) III está incorreta
d) I, II e III estão corretas
e) I, II e III estão incorretas.

Sugestão para reflexão: a solidão é um dos temas mais profícuos na literatura, ao possibilitar a produção de tramas com alta carga psicológica. Debate com os estudantes sobre o tema, tendo em direcionamento, a diferença entre mulher branca e mulher negra. Existe a possibilidade de uma ser mais solitária que a outra? O racismo se estrutura no debate desta questão?

Canal Brasil: A Arte do Encontro

Questão 04: após assistir ao vídeo, leia as proposições.

I – Conceição Evaristo expõe seu ponto de vista sobre religião, caracterizando o divino como algo não exatamente da maneira que aprendeu em sua formação católica, mas como um “mistério”, presença em nossas vidas que explica o que a razão não consegue dar conta.

II – Formada pela literatura oral narrada em sua família, Conceição Evaristo diz ser uma mulher que viver as várias possibilidades do amor, algo que ao longo do programa, ela não consegue traduzir, tal como solicitado por seu interlocutor, o ator Tony Ramos.

III – Conceição Evaristo filosofa sobre a dúvida, ao dizer que não tem medo de se encontrar sem respostas diante de perguntas, pois em nossa vida, só temos a certeza da morte, algo que também é cheio de mistérios e não temos as respostas concretas para compreensão.

Com base no vídeo selecionado e nos debates empreendidos em sala de aula, assinale a alternativa correta:

a) I e II estão incorretas
b) I e III estão incorretas
c) III está incorreta
d) I, II e III estão corretas
e) I, II e III estão incorretas.

Questão 05

I – Oriunda de família humilde, o que faltou de bens materiais sobrou em termos de emoções para Conceição Evaristo, escritora que expõe ser a memória, algo que a move noite e dia, dando-lhe sustentação, inclusive, para a escrita.

II – Em determinado trecho do programa, a escritora diz que as memórias mais proeminentes de sua trajetória a mantém com sanidade, delineando ainda que muito de sua ficção é permeado por invenções memorialísticas, dissipação de fronteiras entre o que é real e ficcional.

III – Conceição Evaristo reflete também sobre memória em associação com a história dos afro-brasileiros que envoltos em lapsos esgarçados, impossibilitados de compreensão plena de suas origens por causa dos desdobramentos da diáspora africana no período colonial.

Com base no vídeo selecionado e nos debates empreendidos em sala de aula, assinale a alternativa correta:

a) I e II estão incorretas
b) I e III estão incorretas
c) III está incorreta
d) I, II e III estão corretas
e) I, II e III estão incorretas.

Questão 06

I – Crítica dos formatos comunicacionais contemporâneos, Conceição Evaristo aponta os problemas das redes sociais e aplicativos, ao falar sobre falta de contato humano e da banalização de nossas expressões cotidianas nesses meios.

II – Em determinado trecho do programa, a escritora tece críticas ao formato atual de comunicação, em especial, o whatsapp, apontando que falta mais humanização nas relações contemporâneas, estruturadas em distanciamentos.

III – Conceição Evaristo reflete que a tecnologia nos deixa menos humanos, principalmente ao falar dos seguidores em redes sociais, tais como Instagram, um lugar que as pessoas supostamente de seguem, mas que no fundo estão todos, no geral, na solidão.

Com base no vídeo selecionado e nos debates empreendidos em sala de aula, assinale a alternativa correta:

a) I e II estão incorretas
b) I e III estão incorretas
c) III está incorreta
d) I, II e III estão corretas
e) I, II e III estão incorretas.

Sugestão para reflexão: quando escrevemos ou agimos de determinadas maneiras, resgatamos elementos que formam a nossa memória? Debate isso com os seus estudantes, além de refletir sobre a nossa relação de dependência com as tecnologias. É possível viver plenamente sem redes sociais e whatsapp?

Na Estante | Conceição Evaristo é a estrela do 61º Prêmio Jabuti

Questão 07: após assistir ao vídeo, leia as proposições.

I – Conceição Evaristo reflete que nem tudo experenciado foi vivido, pois para isso, teria de ser múltipla, delineando para o público que as suas histórias também integram o processo de construção ficcional embasado na coletividade da memória.

II – Em sua fala, Conceição Evaristo resgata Maria, personagem do conto homônimo da coletânea Olhos D’agua, para dizer que nunca vivenciou aquela experiência, mas que a história se inspira na memória coletiva.

III – Marcada pela escrita de Maria Carolina de Jesus, em especial, Quarto de Despejo, ao longo do programa, a autora reflete que a sua casa era um espaço de palavras e muito de sua formação tem origem na literatura oral narrada por sua mãe e tia, grandes contadoras de histórias.

Com base no vídeo selecionado e nos debates empreendidos em sala de aula, assinale a alternativa correta:

a) I e II estão incorretas
b) I e III estão incorretas
c) III está incorreta
d) I, II e III estão corretas
e) I, II e III estão incorretas.

Questão 08

I – Ao refletir sobre o prêmio Jabuti, recebido na 61º edição da premiação, Conceição Evaristo expõe que foi um evento ilustre, mas uma condecoração da solidão, ao perceber que ela era a exceção dentre de todo um conjunto de regras excludentes para os escritores afro-brasileiros.

II – Em sua fala, Conceição Evaristo expõe que a demora para a publicação de seu primeiro livro se deu por causa da falta de demanda do racismo estrutural que não reconhece as experiências de muitos afro-brasileiros como material para produção de ficção no Brasil.

III – Ao mencionar a sua obra, Conceição Evaristo cita Maria e Ponciá Vivêncio, personagens de seu conto e romance, respectivamente, mulheres que herdaram as árduas chagas da escravidão, marco da história colonial do Brasil.

Com base no vídeo selecionado e nos debates empreendidos em sala de aula, assinale a alternativa correta:

a) I e II estão incorretas
b) I e III estão incorretas
c) III está incorreta
d) I, II e III estão corretas
e) I, II e III estão incorretas.

Sugestão para reflexão: o que pode marcar as nossas influências? Debata com os seus estudantes, as obras literárias ou cinematográficas que tenham sido marcos em suas vidas, demonstrando o quão as referências de nossa formação básica podem se manter presentes ao passo que evoluímos cotidianamente.

TV Aparecida | Conheça a história de Conceição Evaristo

Questão 09: após assistir ao vídeo, leia as proposições.

I – Conceição Evaristo fala da importância da literatura não institucionalizada, isto é, das narrativas orais que demarcaram a sua infância e juventude, contadas por sua mãe e seus tios, histórias que definiram muito a sua atuação como professora e, posteriormente, como escritora.

II – Em sua fala, Conceição Evaristo expõe que é uma escritora que escreve e colhe palavras, elementos que sempre estiveram presente em sua vida regrada de bens materiais, mas preenchida pelo encanto da narração de histórias.

III – Ao falar sobre o contexto onde cresceu enquanto jovem, Conceição Evaristo reflete que ao se mudar para o Rio de Janeiro, viveu praticamente num apartheid geográfico, pois a favela que habitava era rodeada por prédios que revelavam a nossa realidade de exclusão e desigualdade.

Com base no vídeo selecionado e nos debates empreendidos em sala de aula, assinale a alternativa correta:

a) I e II estão incorretas
b) I e III estão incorretas
c) III está incorreta
d) I, II e III estão corretas
e) I, II e III estão incorretas.

Sugestão para reflexão: reflita com os estudantes a importância da experiência não institucionalizada como conteúdo para falar de memória e criação de histórias. Muitos de nós temos casos de tias, mães, avós e pessoas próximas com lindas narrativas de vida. Peça aos envolvidos que colham histórias do tipo e apresentem sistematizadas na sala de aula, organizada dentro de um padrão para que todos tenham as mesmas oportunidades de exposição.

Trilhas das Letras recebe a escritora Conceição Evaristo

Questão 10. Leia as proposições.

I – Ao ler Quarto de Despejo, Conceição Evaristo se sentiu parte dos personagens do triste e realista diário de Maria Carolina de Jesus.

II – O sistema literário segrega em vez de promover o encontro, num esquema que envolve prêmios, editoras, crítica literária e outros mecanismos de legitimação excludentes.

III – Associadas com lavadeiras, cozinheiras, cantoras e dançarinas, as vozes negras na literatura afro-brasileira causam o que Conceição Evaristo destaca como “estranhamento”.

Com base no vídeo selecionado e nos debates empreendidos em sala de aula, assinale a alternativa correta:

a) I e II estão incorretas
b) I e III estão incorretas
c) III está incorreta
d) I, II e III estão corretas
e) I, II e III estão incorretas.

Sugestão para reflexão: promova um debate com os seus estudantes, tendo como direcionamento os estereótipos que nós precisamos descontruir diariamente. Por qual motivo associamos a imagem da mulher negra com lugares comuns já muito costumeiros em nossa literatura, tais como lavadeira, cozinheira, dançarina de escola de samba, dentre outras? Nada de errado seguir esses caminhos, mas quando cristalizamos o olhar, não permitimos pensar além dos alinhamentos propostos pelos estereótipos redutores.

Escrevivência

Questão 11. Leia as proposições.

I – Um de seus projetos de maior interesse é produzir o que ela chama de contradiscurso, releituras de obras canonizadas, sob o ponto de vista crítico do olhar afro-brasileiro.

II – Ao refletir a nossa história literária, a escritora diz que Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro são escritores que conseguem passagem mais fácil pelo sistema literário que geralmente desconsidera a experiência negra como legítima para a construção de narrativas ficcionais.

III – Um dos momentos mais memorialísticos de sua prosa é a escrita de Ponciá Vivêncio, romance que nos remete ao âmbito da ancestralidade afro-brasileira.

Com base no vídeo selecionado e nos debates empreendidos em sala de aula, assinale a alternativa correta:

a) I e II estão incorretas
b) I e III estão incorretas
c) III está incorreta
d) I, II e III estão corretas
e) I, II e III estão incorretas.

Questão 12. Leia as proposições. Sobre Conceição Evaristo e seus posicionamentos:

I – Escrever é uma maneira de discordar das coisas da vida.

II – Sem interesse em estabelecer conceitos, Conceição Evaristo acabou criando uma linha de debates sobre o termo “escrivivências”, ato de construir ficção com base experiências pessoais e coletivas.

III – Insubmissas Lágrimas de Mulheres foi a publicação criada para responder aos questionamentos sobre a representação do feminino sempre oprimido na literatura afro-brasileira.

Com base no vídeo selecionado e nos debates empreendidos em sala de aula, assinale a alternativa correta:

a) I e II estão incorretas
b) I e III estão incorretas
c) III está incorreta
d) I, II e III estão corretas
e) I, II e III estão incorretas.

Sugestão para reflexão: reflita com os estudantes as possibilidades de construções narrativas com base em um texto ponto de partida. Explicando: selecione o conto Maria, da coletânea Olhos D’agua. Faça a leitura, debata com a turma e depois peça que cada um crie um desfecho diferente para a personagem, tragicamente aniquilada por causa da violência que nos degrada cotidianamente. A ideia é dialogar com a crítica recebida por Conceição Evaristo sobre sua representação do feminino em situações oprimidas na literatura, reflexão que acabou se tornando a força motriz do livro Insubmissas Lágrimas de Mulheres.

Conceição Evaristo: Encontros de Interrogação

Questão 13. Leia as proposições.

I – A escritora Conceição Evaristo reflete sobre a importância de trabalhar com um tipo de literatura que fuja dos estereótipos em relação aos afro-brasileiros.

II – Ao refletir que a leitura provoca a escrita, Conceição Evaristo revela também que o público feminino e afro-brasileiro foram os primeiros legitimadores de sua produção literária.

III – Em suas observações, Conceição Evaristo destaca a importância de sua entrada para o grupo Quilombhoje, espaço que serve como rito de passagem para escritores afro-brasileiros.

Com base no vídeo selecionado e nos debates empreendidos em sala de aula, assinale a alternativa correta:

a) I e II estão incorretas
b) I e III estão incorretas
c) III está incorreta
d) I, II e III estão corretas
e) I, II e III estão incorretas.

Questão 14. Leia as proposições.

I – A escritora Conceição Evaristo cita autores como Jorge Amado e Paulo Coelho, nomes da literatura brasileira com amplo feixe de leitores, ensaiando uma tese sobre a possibilidade de sermos mais conhecidos por estadunidenses e europeus que pelo público latino-americano.

II – Ao refletir sobre o interesse pela sua obra após o sucesso na França, a escritora reforça que é costumeiro em nossa cultura, favorecer algo depois da aclamação estrangeira.

III – Conceição Evaristo se diz uma mulher ritualística ao escrever, preferindo o silêncio das madrugadas para desenvolver as suas histórias cheias de assonância.

Com base no vídeo selecionado e nos debates empreendidos em sala de aula, assinale a alternativa correta:

a) I e II estão incorretas
b) I e III estão incorretas
c) III está incorreta
d) I, II e III estão corretas
e) I, II e III estão incorretas.

Sugestão para reflexão: reflita com os estudantes os conceitos de boa literatura, classificação muitas vezes preconceituosa por parte da crítica especializada. Reforce também o quão é importante conhecer a biografia do escritor lido em sala de aula, mas ter como foco, o seu texto, material que em si já entrega para o leitor atencioso, detalhes sobre a sua perspectiva de mundo, elemento contaminador da escrita.

A Beleza ao Criar: Revista Bravo

Questão 15. Leia as proposições.

I – A escritora Conceição Evaristo reflete sobre a sua escrita, reforça a ressonância do banto na sonoridade de suas produções e fala que alguns consideram o seu texto um campo repleto de “brutalidade poética”, mescla de dor e tristeza diante de histórias também cheias de beleza.

II – Ao refletir que o conceito de belo é complexo, Conceição Evaristo revela que ao trazer essa ideia para o contexto afro-brasileiro, há uma série de olhares deturpados que tornam turvos o percurso histórico de associação entre beleza e negritude.

III – Em suas observações, Conceição Evaristo afirma que o belo é um conceito relativo e precisa muito de associações com o contexto cultural em que é analisado pelo observador.

Com base no vídeo selecionado e nos debates empreendidos em sala de aula, assinale a alternativa correta:

a) I e II estão incorretas
b) I e III estão incorretas
c) III está incorreta
d) I, II e III estão corretas
e) I, II e III estão incorretas.

Sugestão para reflexão: um debate interessante a ser empreendido na sala de aula, as concepções de beleza e feiura podem render bastante, caso o professor conduza o vídeo e a questão norteadora com textos e imagens complementares. Discutir temáticas raciais em paralelo ao processo de construção social do personagem afro-brasileiro não apenas na literatura, mas na pintura, no teatro, no cinema e nas demais artes: uma ótima opção de mesclar conteúdos de áreas tangenciais e deixar a sua aula dinâmica e complexa, tal como o nosso mundo é cotidianamente em sua transmissão e recepção de mensagens e imagens.

Espelho: Conceição Evaristo e a mulher negra na sociedade

Questão 16. Leia as proposições.

I – Ao longo do programa, a escritora Conceição Evaristo reflete os conceitos de gueto e quilombo, diferenciando-os para compreensão adequada do que é alijamento e o que de fato pode ser considerado como resistência.

II – Ao refletir sobre a sua trajetória, a escritora diz que não veio da pobreza, mas da miserabilidade extrema, sendo hoje uma exceção que comprova a regra racista estrutural em nosso país que ignora a produção escrita afro-brasileira.

III – Em suas observações, Conceição Evaristo afirma que um de seus temas é o embate entre os privilégios da elite branca e a opressão ainda sofrida por afro-brasileiros em posições subalternizadas.

Com base no vídeo selecionado e nos debates empreendidos em sala de aula, assinale a alternativa correta:

a) I e II estão incorretas
b) I e III estão incorretas
c) III está incorreta
d) I, II e III estão corretas
e) I, II e III estão incorretas.

Questão 17. Leia as proposições.

I – Conceição Evaristo se julga brasileira, mas reconhece as suas matrizes africanas, ancestralidade que permeia os seus textos.

II – Ao refletir sobre a sua escrita, Conceição Evaristo faz uma análise geral do personagem negro da literatura brasileira e pontua os estereótipos com personagens sem lugar de fala, infantilizados, donos de corpos objetificados, etc.

III – Em suas observações, Conceição Evaristo afirma na contemporaneidade, tudo é muito urgente, pois os jovens vivem como se não tivessem perspectiva de futuro, passando pelo tempo presente muito violentamente, sem processar direito a própria existência.

Com base no vídeo selecionado e nos debates empreendidos em sala de aula, assinale a alternativa correta:

a) I e II estão incorretas
b) I e III estão incorretas
c) III está incorreta
d) I, II e III estão corretas
e) I, II e III estão incorretas.

Questão 18. Leia as proposições.

I – Conceição Evaristo comenta sobre a sua obra ser considerada muito triste e trágica, ressaltando que a morte, algo misterioso em nossas vidas, também pode render material para produções poéticas.

II – Ao refletir sobre Carolina de Jesus e Quarto de Despejo, uma referência em sua trajetória, a escritora diz que gostaria de ser tão corajosa quanto a autora do diário produzido numa época em que Clarice Lispector estava no auge de sua escrita.

III – Em suas observações, Conceição Evaristo revela para o apresentador que apesar das cotas, lei 10.639 e alguns afro-brasileiros em ascensão, as nossas questões raciais não estão devidamente resolvidas, como se houvesse ainda muito caminho a ser trilhado.

Com base no vídeo selecionado e nos debates empreendidos em sala de aula, assinale a alternativa correta:

a) I e II estão incorretas
b) I e III estão incorretas
c) III está incorreta
d) I, II e III estão corretas
e) I, II e III estão incorretas.

Sugestão para reflexão: a comparação do espaço concedido aos escritores afro-brasileiros no cânone literário pode ser uma interessante opção de debate, reflexão que também permite dialogar com a necessidade de trazer questões sobre o tema além do 13 de maio e da Semana da Consciência Negra, como é o caso de muitos professores e instituições. Estabelecer um diálogo sobre estereótipos, tendo leituras complementares como embasamento também é uma opção assertiva para ampliar os debates em sala de aula, sem ficar no terreno do “achismo”, isto é, o “lugar comum” que tanto devemos evitar no campo da educação.

Conceição Evaristo é convidada do Estação Plural

Questão 19. Leia as proposições.

I – Ao longo do programa, a escritora Conceição Evaristo reflete sobre a questão feminina que permeia a sua obra, tendo Ponciá Vivêncio como um dos grandes destaques de sua fala.

II – Conceição Evaristo comenta as histórias de ninar contadas pelas mães pretas no passado, para adormecer as crianças da Casa Grande, afirmando que a sua proposta é contrapor esse padrão.

III – Em suas observações, Conceição Evaristo reforça que na diáspora africana, os escravizados foram extraídos de suas terras e não conseguiram carregar traços culturais e demais elementos de identificação cultural, numa perda memorialística.

Com base no vídeo selecionado e nos debates empreendidos em sala de aula, assinale a alternativa correta:

a) I e II estão incorretas
b) I e III estão incorretas
c) III está incorreta
d) I, II e III estão corretas
e) I, II e III estão incorretas.

Questão 20. Leia as proposições.

I – Durante o programa, a produção de Conceição Evaristo é tratada como um farol, iluminador das questões afro-brasileiras na literatura contemporânea.

II – Com reportagens internas que complementam as falas dos apresentadores e da entrevistada, o programa levanta questões sobre o conceito de escrevivência e o projeto literário de Conceição Evaristo.

III – Dentre as principais observações no programa, temos a questão do acesso de pessoas negras aos espaços sociais de consumo, algo ainda muito tímido e que comprova a regra do racismo estrutural que nos acompanha há eras.

Com base no vídeo selecionado e nos debates empreendidos em sala de aula, assinale a alternativa correta:

a) I e II estão incorretas
b) I e III estão incorretas
c) III está incorreta
d) I, II e III estão corretas
e) I, II e III estão incorretas.

Sugestão para reflexão: uma boa opção de debate é estabelecer a história das mães pretas em sala de aula, tendo escritores como José Lins do Rego, por exemplo, para ampliar o diálogo dentro do próprio campo da literatura. Associar com cenas de filmes, relacionar com a pessoa responsável pela docência em História na instituição de abordagem do vídeo, tendo em vista permitir uma reflexão sobre a tese Casa Grande e Senzala, de Gilberto Freyre, importante para compreensão das questões raciais ainda muito perversas no Brasil, um país movido erroneamente pela utopia do mito da democracia racial, equívoco que torna o racismo ainda mais estrutural e nocivo. Essa aula de desconstruções deve ter a escritora Conceição Evaristo como mediadora, não apenas com a sua biografia e fala, mas com aporte de suas obras.

Continue Lendo

Educação e Reflexão

Consciência Negra: Debates com charges na sala de aula

Publicado

em

Algumas contém legenda e balões, outras apenas a imagem. Em linhas gerais, independentemente de suas especificidades, as charges se propõem
Foto: Reprodução

Leonardo Campos

A charge é um elemento de grande incentivo na dinâmica de ensino-aprendizagem. Encontramos esse tipo de material crítico em vestibulares, nos livros didáticos, quando abrimos um jornal ou revista, impresso ou virtual, conteúdo humorado que geralmente traz em sua estrutura uma reflexão sobre acontecimentos contemporâneos, voltados ao nosso contexto social, político, bem como outras interfaces das relações humanas. Algumas contém legenda e balões, outras apenas a imagem. Em linhas gerais, independentemente de suas especificidades, as charges se propõem a analisar algo e estabelecer um ponto de vista reflexivo em seu enunciado. O termo vem do francês, charge, que quer dizer carga, uso exagerado de um dado acontecimento ou figura para representação por meio do tom satírico. Em qualquer componente curricular, a charge se faz útil, um recurso empreendedor para debates e construção do conhecimento em sala de aula, proposta realizada recentemente numa associação com os contos da escritora Conceição Evaristo, a autora das escrevivências na atual literatura feminina afro-brasileira.

O projeto foi simples, guiado pelas seguintes orientações: leitura do livro de contos Olhos D’agua, da escritora em questão, seleção de pontos críticos observados em cada unidade da obra, análise das charges previamente selecionadas para distribuição entre os estudantes e solicitação de uma leitura reflexiva sobre os elementos semióticos, contextuais e textuais presentes nas 10 imagens escolhidas para um encontro de debates, tendo os tópicos temáticos dos contos, isto é, desigualdade social, exclusão, racismo estrutural, objetificação dos corpos negros, coerção policial, dentre outros temas, como eixo de direcionamento. Neste processo, várias competências foram desenvolvidas entre os estudantes, tendo o engajamento na leitura de textos verbais e não-verbais como um dos maiores incentivos, haja vista a nossa atual demanda comunicação multimodal, além de permitir que os jovens envolvidos nas atividades reflitam sobre situações de seu entorno, muitas vezes dissociadas da percepção críticas destes indivíduos, levados pela onda de alienação que vem tomando a nossa sociedade constantemente.

Sendo assim, a proposta da atividade com charges é permitir que os estudantes desenvolvam o pensamento crítico e despertem a competência da argumentação por meio da análise de seus conteúdos, afinal, o tom persuasivo deste gênero discursivo reproduz graficamente algo já conhecido do receptor de sua enunciação, ampliando o circuito de discussão de acontecimentos contemporâneos que interessam a todos os envolvidos na fluente e vertiginosa existência em sociedade. Ideal para inserção no que chamamos de conhecimentos gerais, as charges dependem da mínima compreensão do tema abordado para que a crítica seja efetiva. Dentre outras características debatidas ao longo das aulas com as charges selecionadas, tivemos a noção de sua intemporalidade, isto é, a não explicação de sua própria piada, o exagero, distorção proposital da realidade para criar o seu tom “absurdo”, bem como a presença dos textos dos balões como recurso visual para efeito de sentidos.

Em suma, um material de riquíssimo potencial pedagógico, melhor aproveitado quando associado com outros suportes de veiculação de reflexão, ilações em prol das melhores circunstancias de aprendizagem na sala de aula. Agora, vamos conferir as charges selecionadas e as possibilidades de reflexão dispostas em cada uma. Preparados?

Charge nº 01: Racismo estrutural

Conto para ilações e debate: Olhos D’agua e A gente combinamos de não morrer.

Questões norteadoras: a desoladora, mas real trajetória de mães afro-brasileiras, acossadas e sem respostas esperançosas para os seus filhos, cidadãos do futuro que crescem marcados pela herança das tensas questões raciais que permeiam a nossa sociedade.

Charge nº 02: A arbitrariedade do racismo estrutural brasileiro

Conto para ilações e debate: Di Lixão, Lumbiá e Maria.

Questões norteadoras: os contos escolhidos para as ilações não são as únicas opções da coletânea, mas funcionam bem para debater exclusão, injustiça social e outras celeumas oriundas do racismo estruturado em nosso país.

Charge nº 03: O racismo estrutural no contexto brasileiro

Conto para ilações e debate: Ana Davenga, Di Lixão, Luamanda ou Duzu-Querença.

Questões norteadoras: uma charge que dialoga com toda a estrutura da coletânea, mas que pode ser um elo de debate com os contos selecionados acima, histórias que mesclam beleza e tragédia ao flertar com a condição do afro-brasileiro na dinâmica racista estrutural que comanda no cinismo, as relações raciais em nossa nação.

Charge nº 04: Racismo estrutural

Conto para ilações e debate: qualquer um dos 15 contos da coletânea.

Questões norteadoras: a falta de representatividade é um tema bastante discutido quando refletimos a perspectiva dos jovens afro-brasileiros, estereotipados na mídia e na produção cultural disponível para consumo. Caso possível, relacione com A Negação do Brasil, documentário de Joel Zito Araújo sobre a presença do personagem negro na teledramaturgia brasileira.

Charge nº 05: Maternidade afro-brasileira em contexto de violência urbana e racismo estrutural.

Conto para ilações e debate: Lumbiá, Di Lixão ou Duzu-Querença

Questões norteadoras: os três personagens que intitulam os contos em questão são vítimas da falta de perspectiva para a juventude afro-brasileira contemporânea, corpos marcados pela herança da escravidão, indesejada para muitos, mas inevitável em nosso contexto de exclusão.

Charge nº 06: A condição estrutural do racismo no Brasil.

Algumas contém legenda e balões, outras apenas a imagem. Em linhas gerais, independentemente de suas especificidades, as charges se propõem

Conto para ilações e debate: Maria.

Questões norteadoras: trágico, Maria é um conto sobre a mãe de família que não consegue voltar para casa depois de uma jornada exaustiva de trabalho, assim como muitos cidadãos brasileiros negros, tratados como criminosos na dinâmica sádica do racismo estrutural.

Charge nº 07: Sobre o lápis cor de pele…

Algumas contém legenda e balões, outras apenas a imagem. Em linhas gerais, independentemente de suas especificidades, as charges se propõem

Conto para ilações e debate: Olhos D’agua e Os Amores de Kimbá.

Questões norteadoras: pensar as relações de semelhanças e diferenças entre os personagens dos contos com a proposta crítica da charge, possível de ser debatida com qualquer conto da coletânea e ainda render reflexões adicionais, paralelas ao material literário.

Charge nº 08: Coerção social e relações de poder.

Algumas contém legenda e balões, outras apenas a imagem. Em linhas gerais, independentemente de suas especificidades, as charges se propõem

Conto para ilações e debate: A gente combinamos de não morrer ou Maria.

Questões norteadoras: o enraizamento do racismo no Brasil, um país dito por muitos como o paraíso da democracia racial. No caso da relação com o conto Maria, há a possibilidade de demonstrar o quão complexo é o destino de trabalhadores na volta para casa, sem garantias com o perigo não apenas na criminalidade, mas também na postura arbitrária da polícia.

Charge nº 09: A criminalidade que ceifa vidas inocentes e demarcadas desde o nascimento.

Algumas contém legenda e balões, outras apenas a imagem. Em linhas gerais, independentemente de suas especificidades, as charges se propõem

Conto para ilações e debate: Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos.

Questões norteadoras: as tantas infâncias perdidas na criminalidade e a postura policial arbitrária que nos cerceia, ação que deveria ser de correção e proteção, mas tem se tornado cada vez mais problemática.

Charge nº 10: A falta de perspectiva para jovens afro-brasileiros.

Algumas contém legenda e balões, outras apenas a imagem. Em linhas gerais, independentemente de suas especificidades, as charges se propõem

Conto para ilações e debate: Lumbiá ou Di Lixão.

Questões norteadoras: a falta de perspectiva de futuro para muitos jovens afro-brasileiros acossados pelo racismo estrutural enraizado em nossa nação.

Leonardo Campos é Graduado e Mestre em Letras pela UFBA.
Crítico de Cinema, pesquisador, docente da UNIFTC e do Colégio Augusto Comte.
Autor da Trilogia do Tempo Crítico, livros publicados entre 2015 e 2018,
focados em leitura e análise da mídia: “Madonna Múltipla”,
“Como e Por Que Sou Crítico de Cinema” e “Êxodos – Travessias Críticas”.

Continue Lendo

Mais Lidas