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Clássicos da Sétima Arte

O Novo Pesadelo – O Retorno de Freddy Krueger

É necessária uma breve recapitulação do personagem na cultura cinematográfica entre os filmes de 1984 e 1994. Confira!

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Fotos: Divulgação

Leonardo Campos

Quando Wes Craven elaborou o projeto para o retorno para o seu irônico e sagaz antagonista das garras afiadas, O Novo Pesadelo – O Retorno de Freddy Krueger, lançado em 1994, o filme ponto de partida comemorava dez anos. O personagem havia passado por um extenso processo de desgastes no bojo da cultura pop e da indústria cultural, seara de produção que esmiúça tanto um tema ao ponto de qualquer tentativa de retorno ser enfrentada como algo repetitivo ou desnecessário. Com a sétima narrativa da franquia A Hora do Pesadelo, o veterano foi sábio ao desconsiderar qualquer coisa entre os capítulos dois e seis, tendo como foco a atriz que interpretou a final girl Nancy e os desdobramentos de Freddy Krueger em sua carreira. Antes de adentrar na análise da produção, creio que seja necessária uma breve recapitulação do personagem na cultura cinematográfica entre os filmes de 1984 e 1994.

No primeiro, Freddy começa a matar os jovens da Rua Elm Street e Nancy, juntamente com os seus amigos, busca uma alternativa de driblar os planos do monstro. Na continuação, o assassino dos pesadelos possui um jovem para fazê-lo cometer os seus crimes na “realidade”. Em sua terceira incursão, Freddy entra em combate com Nancy num hospital psiquiátrico, interessado em matar os sobreviventes da Rua Elm Street, enviados para o local numa tentativa dos familiares de salvaguardar as suas vidas ameaçadas. Ao longo do quarto filme, Freddy precisa enfrentar uma jovem com a sua trupe, os “guerreiros dos sonhos”, antecipação para o quinto filme, banal, ao retratar Krueger a atacar suas novas vítimas por meio dos pesadelos do feto da protagonista. No “último” embate, Freddy usa um sobrevivente de Springwood para descobrir o paradeiro de sua filha, jovem com novo nome e única a ter a capacidade de trancá-lo no inferno definitivamente.

Diante do exposto, temos bastante dispersão, narrativas burlescas demais, tentativas de humor que não funcionaram e a transformação do personagem numa piada ruim do cinema. Foi engajado com esta possibilidade de torná-lo mais forte e intenso que o realizador concebeu o retorno de Freddy Krueger. Tão magnético e instigante quanto o primeiro filme da franquia, a sétima incursão é um dos melhores exercícios da metalinguagem de toda a história do cinema, não apenas do subgênero slasher, mas numa análise mais panorâmica. Em parceria com Kevin Williamson, o cineasta Wes Craven adentraria dois anos depois no universo de Ghostface, outra obra-prima do cinema nos anos 1990, mas antes disso, fez muito bonito com o resgata de Freddy depois de tantas continuações ruins. Ao longo de seus 112 minutos, O Novo Pesadelo – O Retorno de Freddy Krueger não foca nas gravações de bastidores, erros e acertos da câmera, composição e contratação de elenco, dentre outras situações comuns de filmes metalinguísticos.

O seu foco é o impacto da ficção na vida dos atores que se tornam celebridades e como as fronteiras entre o que é realidade e o que é ficcional transforma-se em uma zona assustadoramente tênue. Também responsável pelo roteiro, Wes Craven nos conta a trajetória de Heather (Heather Langenkamp), uma mulher que se casou com Chase Porter (David Newson) e tem um filho, Dylan (Miko Hughes). Enquanto o marido exercer a função de supervisor de efeitos especiais para cinema, ela vive a temporada de mãe em tempo integral. Em Los Angeles, Heather precisa lidar com alguns terremotos frequentes, alegoria para a sua vida pessoal e estado psicológico, abalada pela presença constante de um fã obcecado que a liga constantemente e entoa a famosa música tema de Freddy Krueger, cenas que são acompanhadas pela condução musical de J. Peter Robinson na atmosférica trilha sonora.

Cansada disso tudo, a atriz decide que precisa ficar o mais longe de tudo isso, isto é, sem contato com pessoas e situações da vida midiática. A abertura do filme, no entanto, nos reforça que as coisas não serão tão fáceis como imaginado. São créditos iniciais que emulam a abertura do primeiro filme. Primeiro contemplamos as mãos de alguém que constrói uma luva com navalhas. Logo mais, arranca a sua mãe e o sangue se esparrama, tendo no fundo alguém que grita “corta”. Sabemos, então, ser os bastidores de um filme de terror. A situação entra em descontrole quando a mão se movimenta sozinha e sai perambulando por trechos do set de filmagens, até chegar em um dos membros da equipe e matá-lo violentamente. A histeria é seguida de Heather despertando de seu pesadelo, com a casa sacudida por um abalo sísmico violento.

Há uma sensação estranha em torno de sua realidade, algo que será reforçado apenas adiante, com a chegada de Freddy Krueger a se apresentar, maquiado pela equipe de Howard Berger, excepcional em seu trabalho, reforçado pelo design de som supervisionado por Paul B. Klay, cuidadoso no tilintar as garras do antagonista que é uma ameaça sobrenatural, mas também faz estragos físicos. Ainda não sabemos quais são os planos de Freddy Krueger, mas tudo indica que será engajado para uma batalha épica. A trama continua com os demais conflitos na vida da personagem. Ela é constantemente citada na TV, o seu filho, Dylan, sofre de sonambulismo e apresenta comportamento instável, com algumas crises preocupantes. Tudo fica ainda pior quando o seu marido morre num acidente de carro provocado no retorno de uma viagem.

Dizem que ele dormiu no volante, mas Heather desconfia de outra versão, principalmente depois que pede para ver o cadáver. Há algo estranho, como se o personagem da ficção estivesse presente na vida real, trajado pelos figurinos de Mary Jane Fort, eficientes na concepção do monstro para a nova era. Destaque também para a direção de fotografia de Mark Irwin, cuidadosa na captação dos espaços, bem como no posicionamento dos personagens e na iluminação de algumas passagens, em especial, na assustadora peça que um programa televisivo faz com Heather durante uma entrevista, ao levar Robert Englund para brincar com a atriz e divertir a plateia.  Convidada para voltar aos filmes, Heather demonstra desinteresse.

Assustada com tudo que acontece em sua volta, ela decide conversar com Wes Craven, o diretor do primeiro filme em que atuou. Eles refletem a condição do personagem, o legado da série e o cineasta diz que talvez Freddy Krueger tenha ganhado força descomunal e saído das malhas ficcionais para exercer o seu papel demoníaco na realidade. Aterrorizada e com ameaças cada vez mais próximas, tal como a morte de Julie (Tracy Minderdorff), cena muito bem orquestrada e que referencia Tina, a ser arrastada pelas paredes no primeiro filme, Heather precisa lutar pela sua vida e para conter Krueger e suas garras afiadas, focadas em agarrar o filho da atriz para atrai-la ao seu reinado de terror. Serpentes, fogo, espaços sinuosos, armas brancas afiadas e outros itens do design de produção de Cynthia Kay Charette transformam o último ato numa representação visual formidável do que pode ser considerado o espaço cênico de um pesadelo.

Com situações que beiram o pesadelo e a realidade, perseguições de todos os lados, das sobrenaturais aos elementos reais que a pressionam, a final girl de 1984 cumpre o seu papel protagonista e aceita o embate com Freddy ao adentrar em seu mundo infernal, num desfecho empolgante e com o final já esperado pelo público: o enjaulamento do antagonista nas profundezas, com retorno apenas no crossover com o monstro de Sexta-Feira 13, lançado em 2003, o exagerado e divertido Freddy vs. Jason, filme desconectado do universo de Nancy, focado exatamente no legado dos seus personagens principais. Se houvesse apenas esse filme e o primeiro, Freddy Krueger seria um personagem com o mesmo legado impactante. Mesmo no exercício do papel de fãs, é preciso reconhecer que a franquia A Hora do Pesadelo sobreviveria tranquilamente sem todas as continuações entre o segundo e o sexto filme, completamente descartáveis e nulos como entretenimento, tamanha a “ruindade” de suas estruturas narrativas.

Agora, vamos para uma análise em pormenores do filme, preparados?

Em seu costumeiro bom trabalho metalinguístico, Wes Craven abre O Novo Pesadelo com os bastidores de gravação do filme dentro do filme. A confecção da lendária luva e a presença do elemento fogo demonstram um paralelo com o preâmbulo da produção de 1984. Os envolvidos na empreitada testam a fotografia, os efeitos especiais e maquiagem. Esta é a tônica de todo o filme: demonstrar para o público a consciência referencial e inserir o espectador no clima nostálgico proposto pela narrativa.

Ainda na mesma passagem, Wes Craven faz uma de suas primeiras participações, encarnando em cena o papel de diretor responsável pelo filme dentro do filme. Na imagem abaixo, Dylan é carregado pelo pai e passeia pelos bastidores. Eles sequer imaginam que Freddy Krueger está preparado para retornar, mais uma vez, agora, sob o crivo de seu papel criador.

As coisas parecem não caminhar muito bem em casa. Dylan demonstra um comportamento que será desenvolvido perigosamente ao passo que a narrativa evolui. Ameaçados pelos terremotos que assolam a cidade, algo que de fato acontecia enquanto os envolvidos filmavam O Novo Pesadelo. Na imagem com os danos causados pelo evento sísmico, uma alusão ao horror de Freddy Krueger toma conta da tela: as referências estão nas garras do antagonista, um trabalho da cenografia que ao lado da direção de arte e dos adereços, tornam o filme uma produção assertiva em sua dinâmica visual.

A protagonista Heather, a Nancy do primeiro filme, agora de volta como ela mesma, recebe ligações estranhas e precisa lidar com o comportamento estranho de seu filho. Aparentemente, o garoto é ameaçado pela presença de Freddy Krueger, entidade interessada em sair da zona em que se encontra para estabelecer o seu reino de horror na realidade. Afastada do gênero, Heather recebe trotes constantes de um fã insano, interessado em desestabilizar o seu cotidiano.

Convidada para participar de um programa televisivo, Heather debate com o apresentador o legado e o impacto cultural de Freddy Krueger. Na plateia, os fãs demonstram a afeição que possuem diante do personagem icônico. Camisetas, faixas, colecionáveis e outros produtos integram a passagem, encerrada com a chegada inesperada de Robert Englund, o intérprete de Freddy Krueger, convidado para fazer uma surpresa para a atriz que neste momento, já não se encontra tão bem diante das pequenas crises de seu filho em casa, comportamento que evoluirá para uma jornada desesperada ao passo que o filme avança. Aqui, a famosa música tema e algumas incursões da direção de fotografia emulam cenas de produções anteriores da franquia.

Após a gravação do programa, Heather reencontra Robert Englund nos bastidores, desta vez, sem os trajes e maquiagem alusivos ao antagonista Freddy Krueger. Ambos falam de perspectivas e compartilham sonhos estranhos que ocorrem com certa frequência. Em passagem pelos escritórios da New Line, a “casa” de Freddy, Heather reencontra antigos realizadores que desejam a sua presença em uma nova incursão de A Hora do Pesadelo. Krueger está morto? Sim, responde o produtor, mas os fãs querem mais e assim, os envolvidos criaram uma história nova e incrível, tendo Heather como protagonista.

No escritório da New Line Cinema, Heather reencontra Bob Shaye, o produtor da franquia A Hora do Pesadelo. O personagem descreve em detalhes o projeto para a nova incursão de Freddy Krueger no cinema, mas Heather é firme ao dizer que não quer mais se ver vinculada aos filmes de terror. Ele expõe questões sobre cachê, visibilidade, mas a atriz não parece confortável para reencontrar o antagonista da luva com lâminas afiadas. No ambiente, a direção de arte atua forte na inserção de adereços que demonstram o extenso legado de Freddy na era da reprodutibilidade e da cultura dos fãs. Este é um dos pontos mais primorosos do filme: o cuidado com os detalhes visuais e a concepção de elementos referenciais.

Quando Wes Craven elaborou o projeto para o retorno para o seu irônico e sagaz antagonista das garras afiadas, O Novo Pesadelo – O Retorno

A direção de fotografia não deixa de captar, constantemente, detalhes que nos remetem ao imperioso legado visual de Freddy Krueger na cultura pop. Ainda em conversa com Bob Shaye, Heather é informada que o seu marido, também um profissional de cinema, tinha sido escalado para compor a equipe do novo filme e já trabalhava na concepção do novo protótipo da luva do antagonista, notícia que toma Heather de surpresa e a faz sair do local desconfortável.

Quando Wes Craven elaborou o projeto para o retorno para o seu irônico e sagaz antagonista das garras afiadas, O Novo Pesadelo – O Retorno

Dylan apresenta um comportamento cada vez mais estranho e insiste em assistir ao filme A Hora do Pesadelo, como se estivesse hipnotizado pelas imagens da produção de 1984. Heather chega em casa após a reunião com Bob Shaye e encontra o filho tendo uma das crises que se tornaram habituais. Abaixo, o protótipo da nova luva de Freddy Krueger, elaborada pelo marido de Heather, figura ficcional que mais adiante, perderá a vida para o antagonista dos pesadelos.

Quando Wes Craven elaborou o projeto para o retorno para o seu irônico e sagaz antagonista das garras afiadas, O Novo Pesadelo – O Retorno

A angustiante sequência da primeira morte. Heather perde o seu marido. Ele retornava para casa, tendo em vista assessorar a esposa diante das crises de Dylan, mas não consegue encontrar o seu caminho por conta de um ataque de Freddy Krueger. No necrotério, Heather é levada para fazer o reconhecimento do corpo e, para sua surpresa, descobre que o principal ferimento do acidente parece realizado por garras semelhante ao que o antagonista de A Hora do Pesadelo fazia em seus filmes. Questionando a sua sanidade, a atriz começa a temer de verdade e inicia a sua jornada de enfrentamento com o maníaco dos pesadelos.

Quando Wes Craven elaborou o projeto para o retorno para o seu irônico e sagaz antagonista das garras afiadas, O Novo Pesadelo – O Retorno

Freddy Krueger e sua astúcia: Heather não encontra paz nem no enterro do marido. Abalada, as pessoas inicialmente acham que é desdobramento do luto, mas logo adiante, a sanidade da personagem é colocada em xeque. Adiante, Dylan continua a sua jornada obsessiva e acorda no meio da madrugada para assistir ao clássico A Hora do Pesadelo. Assustada, Nancy decide intervir, mas o filho demonstra um comportamento ainda mais agressivo.

Quando Wes Craven elaborou o projeto para o retorno para o seu irônico e sagaz antagonista das garras afiadas, O Novo Pesadelo – O Retorno

Cada vez mais agressivo, Dylan é encaminhado para dormir. A direção de fotografia trabalha com tons azulados em sua iluminação, estabelecendo assim um clima soturno e onírico, definição cabal da atmosfera desta franquia sobre pesadelos mortais. Heather já está convicta do espiral de emoções que a guiará nos próximos dias. O sobrenatural se estabelece na realidade, pois conforme a imagem, o garoto assistia aos trechos de A Hora do Pesadelo com a televisão desconectada da tomada.

Quando Wes Craven elaborou o projeto para o retorno para o seu irônico e sagaz antagonista das garras afiadas, O Novo Pesadelo – O Retorno

Freddy Krueger se aproxima e a atmosfera, ainda azulada, reforça o caráter onírico da sua presença maligna. Heather tem outro encontro com o antagonista, agora, prenúncio da montanha-russa de emoções que se desdobra até o desfecho. Dylan, em plena madrugada, caminha pela casa cantando a clássica música tema do filme e deixa a sua mãe aterrorizada. Numa manifestação inesperada, mostra todo o potencial manipulador de Freddy e fere a sua mãe com facas adaptadas em seus dedos, tal como a luva do monstro. O caminho para o hospital é garantido e neste espaço, o terror vai ganhar protagonismo com novas mortes.

Quando Wes Craven elaborou o projeto para o retorno para o seu irônico e sagaz antagonista das garras afiadas, O Novo Pesadelo – O Retorno

Aqui, o design de produção gerencia a direção de arte e a cenografia para criar espaços que emulem os elementos visuais da franquia e crie uma identidade com as garras de Freddy Krueger, onipresente também em pequenas passagens que nos remetem ao seu reinado de terror. Na cena abaixo, Heather recebe uma ligação e a clássica cena do primeiro filme, da língua que sai pelo telefone, se repete, deixando-a cada vez mais atordoada.

Quando Wes Craven elaborou o projeto para o retorno para o seu irônico e sagaz antagonista das garras afiadas, O Novo Pesadelo – O Retorno

Lin Shaye, irmã de Bob, o produtor, faz uma pequena participação como enfermeira no momento de atendimento de Dylan no hospital. Heather, estarrecida, procura Wes Craven para compreender o conteúdo do roteiro de seu novo filme. O diretor narra que tem tido pesadelos terríveis e o desaguar terapêutico tem sido o texto dramático. Eles debatem a presença de Freddy Krueger e, consequentemente, expõe pela metalinguagem o legado e o impacto cultural deste personagem intrigante e com presença firme na cultura pop.

Quando Wes Craven elaborou o projeto para o retorno para o seu irônico e sagaz antagonista das garras afiadas, O Novo Pesadelo – O Retorno

No hospital, a sanidade de Heather é questionada. Será que ela tem deixado o seu filho assistir aos filmes de terror que protagonizou? Num momento que faz referência ao assassinato de Tina em A Hora do Pesadelo, a babá de Dylan é impiedosamente aniquilada por Freddy Krueger, agora forte e com destreza para estabelecer o seu reinado de horror. Faltam poucos instantes para a narrativa ser encerrada e Heather precisa lutar com todas as suas forças para liberar a si e ao seu filho das terríveis forças do mal desta criatura aterrorizante.

Quando Wes Craven elaborou o projeto para o retorno para o seu irônico e sagaz antagonista das garras afiadas, O Novo Pesadelo – O Retorno

Na linha do conto popular de João e Maria, Heather segue os caminhos dos comprimidos indutores do sono para encontrar Freddy Krueger em seu território. O maligno personagem já levou Dylan e agora é o momento da batalha final. Lá, o antagonista é derrotado pelo uso do elemento que mais o deixa temeroso: as chamas ardentes do fogo, num trecho que encerra a jornada e sob o crivo de Wes Craven, é a última incursão de Freddy Krueger até o marombado Freddy Vs. Jason e a razoável refilmagem de A Hora do Pesadelo, lançada em 2010.

Leonardo Campos é Graduado e Mestre em Letras pela UFBA.
Crítico de Cinema, pesquisador, docente da UNIFTC e do Colégio Augusto Comte.
Autor da Trilogia do Tempo Crítico, livros publicados entre 2015 e 2018,
focados em leitura e análise da mídia: “Madonna Múltipla”,
“Como e Por Que Sou Crítico de Cinema” e “Êxodos – Travessias Críticas”.

Clássicos da Sétima Arte

O impacto e o legado de ‘O Exorcista’

Desde o sucesso desta obra, vários filmes tentaram pegar carona na temática. Acompanhe a lista!

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de um clássico do cinema lançado em 1973. Mesmo que você não tenha assistido, provavelmente já deve ter lido algo sobre o filme O Exorcista,
Fotos: Divulgação

Leonardo Campos

Antes de começar a leitura, feche os seus olhos e faça a contagem em seu pensamento. Quantas tramas sobre exorcismo você já assistiu? Muitas, concorda? A maioria delas, acredite, são ressonâncias do legado de um clássico do cinema lançado em 1973. Mesmo que você não tenha assistido, provavelmente já deve ter lido algo sobre o filme O Exorcista, produção dirigida por William Friedkin, cineasta baseado na obra homônima de William Peter Blatty. Sucesso de bilheteria e crítica, o filme foi indicado a 10 prêmios na cerimônia do Oscar, além de circular por outras premiações, tais como o Globo de Ouro, BAFTA etc. A narrativa é uma espécie de “marco” para os filmes de exorcismo, um subgênero do terror, assim como os filmes de tubarão, psicopatas mascarados e vampiros. Poucos, no entanto, conseguiram alcançar excelência em suas tramas. O Exorcismo de Emily Rose talvez seja o melhor deles. As sequências de O Exorcista foram ruins, Dominação, Renascida do Inferno e O Último Exorcismo são filmes que apesar de alguns bons momentos, ficaram devendo bastante, além das numerosas versões lançadas diretamente para vídeo, em sua maioria, fracassos ululantes de crítica e questionáveis desde a elaboração dos seus cartazes.

Tema largamente levado ao cinema, o exorcismo designa o ritual que é executado por uma pessoa autorizada por uma instituição maior (a Igreja) a expulsar espíritos malignos de alguém tomado por forças demoníacas. Durante os registros da sua história, o cristianismo relatou episódios de Cristo expulsando demônios, mas observa-se, através de estudos antropológicos, que esta prática é antiga e faz parte da crença de muitas religiões e culturas, cada uma com suas peculiaridades. Na dinâmica ficcional, o ato geralmente é comandado seguindo a liturgia católica, como podemos observar em O Exorcista e seus genéricos. Trata-se de uma ação constituída por palavras e gestos, sinal da cruz, água benta, imposição das mãos e desempenho sério diante das supostas forças do mal. No âmbito artístico o exorcismo já foi muito bem representado através de pinturas famosas, tais como as executadas por Giotto (figura 01) e Goya (figura 02), além de referências em livros, séries televisivas, peças teatrais e outros circuitos artísticos. Desde o sucesso de O Exorcista vários filmes tentaram pegar carona na temática. Acompanhe a lista de obras sobre o assunto. É o que veremos neste texto que continua a abordagem sobre a persistência da memória no cinema, uma análise que passeia panoramicamente pelo romance, filme e legado deste eloquente clássico do cinema moderno. Vamos lá?

Ponto de Partida: O Exorcista, obra-prima literária de William Peter Blatty

Amaldiçoado? Como assim? Há uma série de lendas que gravitam em torno do romance e do filme O Exorcista, mas, convenhamos, sobreviver na memória coletiva após quase cinquenta anos de seu lançamento é algo para poucas obras literárias.  Lançado em 1972, no Brasil, pela Editora Nova Fronteira, o livro vendeu tanto que os lucros de Carlos Lacerda, dono do selo, patrocinaram a publicação da primeira edição do Dicionário Aurélio. Diante do exposto, será que dá para pensar em maldição? Vamos adiante para verificar se esta falácia procede.

Publicado em 1971 nos Estados Unidos, o romance ficou mais de um ano na lista dos best-sellers do New York Times, estampando o posto dos mais bem sucedidos daquela safra. Relançado 40 anos depois, numa edição revisada pelo autor, O Exorcista é uma obra que demonstra interesse para os pertencentes às gerações contemporâneas, haja vista o seu caráter visceral e a sua narrativa impetuosamente assustadora. Como apontou o New York Times na época de seu lançamento, “poucos leitores sairão ilesos”. Em O Exorcista, um padre jesuíta (Merrin) lidera uma escavação arqueológica na região Norte do Iraque, terreno que como já sabemos, é marcado pelas guerras ideológicas entre Oriente e Ocidente (leia-se, especificamente, Estados Unidos). Durante a pesquisa, o padre encontra uma estatueta do demônio Pazuzu, um ícone da cultura suméria.

Após este primeiro encontro “simbólico”, uma série de presságios nos sinaliza que em breve uma batalha contra o mal será algo inevitável. O leitor, ao absorver as revelações em camadas assustadoras, descobrirá, mais tarde, que o padre já teve a sua cota com o maligno, durante um exorcismo realizado na África há algum tempo. Engraçado observar toda a ideologia que atravessa este livro: o “macabro” e o “maligno” está sempre na figura do “outro”, numa leitura política interessante, principalmente aos já introduzidos ao universo discursivo de pensadores contemporâneos, tais como Edward Said, Homi Bhabha e Stuart Hall.  Logo mais, somos informados pelo narrador, que paralelo aos acontecimentos, na cidade de Georgetown, a atriz Chris MacNeil enfrenta um grande problema em sua casa. Desesperada, ela observa a sua filha, Regan MacNeil, ficar doente de maneira inexplicável, numa doença que apresenta sintomas de ordem física e psicológica sem precedentes no seio daquela família.

Por falar em família, há algumas lacunas que a história faz questão de apresentar. O pai, ausente, pouco se importa com a adolescente, realizando ligações peremptoriamente. Se a política está nos aspectos contextuais, a ausência do pai para o estabelecimento do maligno também é algo importante para ser observado, refletido e analisado. Após investigar os problemas envolvendo a família entre médicos e outros especialistas, Chris MacNeil, cética, é obrigada a recorrer ao nebuloso campo da religião, um espaço até então desinteressante, haja vista a sua crença materialista nas coisas. O materialismo da matriarca, por sua vez, não está apenas na casa luxuosa, afinal, nada menos digno para uma atriz de fama no campo da produção cinematográfica. Ela não acreditava, até então, na existência de coisas que não fossem além do mundo físico e palpável.

O autor em seu escritório (1) com a atriz Linda Blair (2) e uma imagem de seu arquivo na época do lançamento do romance O Exorcista.

Ao repensar a sua fé, Chris busca a ajuda de um padre. O desespero aumentou por conta da mudança brusca no comportamento da adolescente. O passo a passo a caminho do horror absoluto, inclusive, é muito bem estruturado: em “Começo”, ruídos, queda brusca da temperatura em alguns cômodos, bem como móveis fora do lugar ao amanhecer demonstram que algo de errado acomete aquele lar. Em “A Beira”, o horror se estabelece com acontecimentos peculiares. A fé abalada do Padre Karras reforça que os problemas são maiores do que possamos imaginar. Em “Abismo”, a história ganha contornos mais sombrios e o ritmo torna-se mais frenético. Algumas subtramas são apresentadas, tais como missas negras e mortes misteriosas, mas nada que atrapalhe o ritmo já estabelecido, ao contrário, afetam o leitor e nos conduz aos arrepios oriundos de toda boa história de horror. É neste trecho que Reagan apresenta-se transformada: diz palavrões inimagináveis e comporta-se de maneira agressiva.

Segundo alguns relatos, o livro originou-se de uma aterrorizante história “real” ocorrida em Mount Rainier, no estado de Maryland. Na época o The Washington Post apresentou o discurso de um padre com detalhes sobre o exorcismo de um menino de 13 anos, chamado Ronald, cujo processo de realização durou extremas seis semanas. Em 1999, por sua vez, o caso reverberou novamente na mídia. Desta vez, o repórter Mark Opsasmick contestou o acontecimento em Mount Rainier, alegando que na verdade os fatos se sucederam em Cottage City. No artigo “O menino assombrado de Cottage City: os fatos por trás da história que inspirou O Exorcista”, o jornalista apresenta os relatos de um padre que supostamente teria participado do exorcismo e alegado que não houve alteração de voz, nem vômito, nem urina excessiva ou xenoglossia (voz imitando latim). Segundo a abordagem do texto, há indícios de que sequer tenha ocorrido a dita possessão demoníaca. Em suma, mais um tentando lucrar em cima do interesse coletivo acerca de o clássico.

Como apontado em um trecho do livro “acredito que o objetivo é fazer com que nos desesperemos, que rejeitemos nossa humanidade e que vejamos a nós mesmos como bestas, maus, podres, horrorosos e indignos”. O livro, bem como o filme, traz alegorias sobre a condição da humanidade diante dos absurdos que ocorreram no século XX: guerras, violação dos diretos humanos, violência, assuntos que se complementam e formam uma massa exemplar para se discutir o que Freud chamou de “mal-estar da civilização”. Independente destes textos que tentam desvendar questões acerca do livro, pouco interessa: O Exorcista está aí, é memória viva do cinema, ainda assusta leitores ao redor do mundo e será referência imediata ao se discutir exorcismo e possessão demoníaca.

No que tange aos aspectos literários, O Exorcista merece algumas observações elogiosas. Primeiro, delineia muito bem os seus personagens. A crise envolvendo a fé do Padre Karras é muito bem desenvolvida e acrescenta tensão ao processo de exorcismo. Os perfis de mãe e filha também são bem estruturados, pois os personagens evoluem. Se olharmos detidamente, além das afetações por conta do sentimento de pânico que a narrativa nos envolve, perceberemos que muito além de uma história de horror (a superfície), estamos diante de uma história de amor, de culpa, de redenção e do velho embate entre o bem e o mal.

Outro ponto literário que merece destaque é a escrita de William Peter Blatty. Mesmo utilizando o tom policialesco fruto da sua herança literária, ele tem o privilégio de não emular os estilos de H. P. Lovecraft ou Edgar Allan Poe, escritores que estão nas memórias, camisas, faixas e slogans de quase todos os autores de terror do século XX. Envolvente, a leitura envolve de uma maneira que a catarse é constante, não apenas fruto de uma “curva dramática” esquemática de finais de histórias. Se há um problema, este não é detidamente algo do autor em específico. É uma questão de ordem cultural. Como apontado anteriormente, as séries, filmes e a literatura ocidental geralmente costumam utilizar elementos de culturas ditas “tropicais” e ‘excêntricas” para compor o mote das suas histórias. Observe, se você já não refletiu sobre esta questão antes, como os filmes envolvendo questões demoníacas ou sobrenaturais são construídos com base em amuletos, espelhos, caixas, anéis ou objetos oriundos do México, do Chile, do Peru, da Coréia do Norte (e do Sul), do Iraque, de Cuba e até mesmo do Brasil. Para alguns, isso passa despercebido, mas esteja atento.

É ideologia pura, entretanto, nada que impeça a relação de prazer entre a obra e o receptor. O diabo, ente infernal representado nas artes desde o Inferno Dantesco, ao mundo de quem veste Prada, não foi o foco desta vez. Alguns confundem, por sinal. A possessão é de ordem demoníaca e o culpado é Pazuzu, senhor dos ventos, figura mitológica assíria e babilónica que segundo relatos, era responsável pela fome, pela seca e pelo envio de gafanhotos em dias chuvosos. Quer mais? Pois observe: a sua representação profanava a imagem humana e apresentava como uma colagem de partes de diversos animais. Monstruoso, animalesco e assustado, não é mesmo, caro leitor? Graças ao sucesso literário, O Exorcista tornou-se um filme de sucesso, por sinal, uma das raras aparições do gênero terror na tradicional cerimônia anual do Oscar. O filme ganhou as estatuetas de Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Som, além de ter sido indicado a diversos prêmios, entre eles, Melhor Filme e Melhor Diretor. Menção honrosa, não? Ainda pensando em maldição? O material mostra-se tão rentável que se tornou uma (questionável) franquia e recentemente estreou como série televisiva.

A Estrutura Narrativa de Um Clássico do Cinema

Marco da história do cinema, O Exorcista é um filme que mesmo não assistido, pode ser facilmente reconhecido por qualquer pessoa que tenha contato mínimo com a indústria cinematográfica. A produção, hoje, possui caráter arquetípico, servindo de inspiração para diversos filmes de horror que tentam seguir o seu modelo: uma criança inicialmente comportada, que diante da presença de uma entidade maligna, começa a apresentar comportamento estranho, e posteriormente, é possuída, trazendo à tona pânico e horror para os mais próximos, sejam os pais, familiares e/ou amigos. Lançado nos cinemas em 26 de dezembro de 1973, O Exorcista foi dirigido por William Friedkin e distribuído pela Warner Bros. O roteiro foi assinado por William Peter Blatty, autor do romance homônimo baseado numa história real, ocorrida nos Estados Unidos com o menino Robbie Manheim, de 14 anos, em 1949.

Dentre os profissionais integrantes da equipe técnica, relevantes para esta reflexão, temos Owen Roizman na direção de fotografia e Bud Smith na montagem, responsáveis por aspectos formais explorados em um tópico mais adiante. Com densos 122 minutos de duração, O Exorcista apresenta a seguinte estrutura narrativa: numa visita a um sítio arqueológico no Iraque, o Padre Merrin (Max von Sydow, como sempre, ótimo) encontra uma estranha escultura muito parecida com a imagem do demônio Pazuzu. Através de um corte da câmera, somos levados ao apartamento de Chris MacNeil (Ellen Burstyn, igualmente maravilhosa e intensa), uma atriz envolvida numa produção cinematográfica e que precisa flertar com o comportamento estranho da sua filha de 12 anos, Regan MacNeil (Linda Blair). A menina apresenta uma série de convulsões e demonstra tamanha força para agredir as pessoas ao seu redor, levitando e falando palavrões inimagináveis para a educação que a mãe lhe submete desde pequena. Após passar por diversos médicos e tratamentos psiquiátricos, os profissionais aconselham à mãe a tentar algo alternativo: um exorcismo.

No eixo narrativo paralelo temos a história de Damien Karras (Jason Miller), um jovem padre que está com a fé balançada devido ao estado de saúde da sua mãe. Chris MacNeil consulta o Padre Karras e solicita a sua ajuda, visto que o mesmo também é psiquiatra. Inicialmente duvidando de questões no que tange à possessão, o padre descobre que o estranho idioma falado pela menina durante as agressões realizadas nos surtos iniciais é o idioma inglês ao contrário. Mesmo cerceado pela dúvida, o padre decide solicitar permissão à Igreja para realizar o exorcismo. O que vem a seguir pode ser descrito como um dos espetáculos de horror mais bem orquestrado da história do cinema. O Exorcista foi a primeira produção do gênero a ser indicada ao Oscar de Melhor Filme, sendo ainda contemplado com outras oito indicações, ganhando duas: melhor roteiro adaptado e melhor som.

de um clássico do cinema lançado em 1973. Mesmo que você não tenha assistido, provavelmente já deve ter lido algo sobre o filme O Exorcista,

O filme ainda foi indicado ao BAFTA de melhor som, e também esteve na importante premiação Globo de Ouro, onde ganhou quatro estatuetas: melhor filme – drama, diretor, atriz coadjuvante para Linda Blair e roteiro. Como já era de se esperar em uma produção que envolve o “tinhoso”, O Exorcista possui um extenso e mitológico histórico no painel das produções cinematográficas do século XX. Diversas lendas urbanas surgiram e factoides dos bastidores foram transformados em documentários, alguns deles alegando que durante as gravações, manifestações malignas teriam sido responsáveis por mortes, desastres e atrasos ocorridos de forma misteriosa. Foram 9 pessoas mortas em circunstâncias estranhas, vítimas de quedas, assaltos e doenças, além de locações que sofreram incêndio.

As estratégias de direção de William Friedkin também eram bastante controversas, como em alguns momentos de concentração da equipe, geralmente surpreendida, pois ele dava tiros para cima sem aviso prévio, deixando todos assustados e em estado de tensão. Um freezer gigantesco foi acoplado no set de filmagens, o que deixou o local extremamente gélido, numa busca do diretor pelo “clima” ideal de filmagem. A produção coleciona uma série de polêmicas: foi processada por Mercedes McCambridge, dubladora da voz demoníaca da personagem Regan. A profissional alegou ter fumado cerca de seis maços de cigarro por dia, além de ingerido ovos crus e maçãs defumadas, buscando a voz ideal, o mais assustadora possível, vendo a ausência do seu nome nos créditos como uma falta de respeito dos envolvidos na produção.

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Imagem dos Bastidores de O Exorcista

No que diz respeito à recepção, o público recebia sacos de vômito nas sessões, além da proibição em diversas salas de cinema, principalmente no Reino Unido e em algumas salas de Londres. Visando vencer estas barreiras, o estúdio providenciou o The Exorcist Bus, condução responsável por levar os interessados a assistir ao filme em cidades próximas. Era a indústria do cinema fortalecida pelos cinéfilos interessados em driblar a censura numa época predecessora às mídias virtuais. Metaforicamente, alguns estudiosos da cultura alegam que no filme é possível promover um diálogo sobre a contracultura: primeiro, a menina seria uma representação dos males das drogas e da tal “juventude transviada”, ou seja, o horror das famílias tradicionais em face da nova conjuntura social. Outros apontam uma questão bastante curiosa: por que o demônio resolve assustar um lar onde um dos problemas que perturbam a “possuída” é a ausência do pai, distante por causa do divórcio? São questões que podem soar exageradas, mas não deixam de ter o seu lugar para os mais interessados numa reflexão além das questões técnicas e de entretenimento.

Diversas vezes imitado, mas nunca igualado, O Exorcista só possui duas produções que se aproximam do seu clima aterrorizante: O Exorcismo de Emily Rose, um drama que mescla elementos de tribunal e horror, e Invocação do Mal, uma assustadora narrativa sobre uma família perseguida por espíritos malignos. Annabelle, Livrai-nos do Mal, Possuído Pelo Demônio e O Último Exorcismo são apenas algumas das numerosas produções que tentam capitalizar em cima das boas ideias presente neste clássico. Para Linda Blair, entretanto, o sucesso do filme não foi algo favorável. A atriz amargou por bons papeis, fez a continuação desnecessária do filme, pagou mico numa paródia de si mesma em A Repossuída, além de nunca mais ter conseguido atuar em produções do mainstream, tendo apenas uma pequena participação no primeiro filme da série Pânico, de Wes Craven.

O Som do Horror: A Trilha Sonora de O Exorcista

O Exorcista, tal como Tubarão e A Profecia, faz parte de um painel de filmes que são inesquecíveis não apenas por seu conjunto. As imagens aterrorizantes marcaram para sempre o imaginário coletivo, a recepção narra histórias surpreendentes de pessoas sacolejadas pela projeção de tanta violência física e psicológica no cinema, algo não muito comum para a época, além de ser um marco na composição musical, muitas vezes retomadas em outros filmes em tons de homenagem e às vezes nos meandros do plágio. Com uma história tão fascinante, O Exorcista é um marco também em sua trilha sonora original.

O enfoque no “original” é importante graças ao conflito que houve nos bastidores de produção. A trilha inicialmente composta para adornar o filme era tão apavorante e atordoadora que os produtores decidiram retirar do filme, pois se na exibição do trailer já havia causado tremenda histeria, imagina na exibição dos 120 minutos de narrativa. Com seus teclados macabros e melodia emocionalmente tenebrosa, a primeira versão produzida por Lalo Schifrin, responsável pela musicalidade do clássico Rebeldia Indomável, trazia um tom absurdamente pesado, com a junção dos elementos anteriormente citados, acoplados com violinos frenéticos e cantigas bem soturnas. Houve uma histeria coletiva, hoje aparentemente bastante positiva para o marketing do filme, o que culminou na suspensão do material que “assustou a audiência” e promoveu uma reformulação.

de um clássico do cinema lançado em 1973. Mesmo que você não tenha assistido, provavelmente já deve ter lido algo sobre o filme O Exorcista,

Ganhador do Oscar de Melhor Som, o idealizador do subgênero “filmes de exorcismo” apresentou uma trilha sonora monofônica no cinema, remasterizado em 1998, quando relançado em Home Video. Dois anos depois, uma nova exibição nos cinemas prometeu 11 minutos de cenas inéditas, com direito a nova reformulação sonora, tendo em vista acompanhar as evoluções tecnológicas da nova era. Conhecida por também utilizar o silêncio em prol do estabelecimento da sensação de horror e medo, elementos necessários para o funcionamento das propostas de seu roteiro, O Exorcista é um dos filmes com melhores truques sonoros da história do cinema, afinal, como não se lembrar da cena do relógio de pêndulo e dos cachorros raivosos no primeiro encontro entre o padre Merrin e o demônio Pazuzu? De arrepiar apenas pela lembrança. E é pela memória que a trilha sonora do filme se faz presente no imaginário cinematográfico. Talvez só não seja mais memorável que a música do chuveiro de Psicose ou o ostinatos da fera marinha de Spielberg, dupla de faixas temáticas amplamente referenciadas na cultura pop.

de um clássico do cinema lançado em 1973. Mesmo que você não tenha assistido, provavelmente já deve ter lido algo sobre o filme O Exorcista,

Diante da necessidade de reformulação, os produtores utilizaram Tubular Bells, de Mike Oldfield. Editado em 1973, o álbum faz parte do gênero rock progressivo, com predomínio do piano de cauda e de sinos tubulares, ambos tocados pelo próprio Oldfield, mixados posteriormente. A composição também conta com coro feminino (Mundy Ellis e Sally Oldfield), flautas de John Field, contrabaixo de Lindsay Cooper e engenharia de som assinada pelo trio formado por Simon Heyworth, Tom Newman e Mike Oldfield. Com seu estilo minimalista que evolui de maneira gradativa, dando espaço para a progressão instrumental, a trilha dá bastante ênfase para a introdução do tema. Retomada pelos produtores da série televisiva que em 2017, desponta com a sua segunda temporada, Tubular Bells é aparentemente calma, mas revela muita tensão por detrás de sua estrutura.

Para os momentos mais inquietantes do filme, os produtores utilizaram composições experimentais do polonês Krsystof Penderecki e de George Cumbs, aplicadas ao filme para dar maior destaque aos momentos de horror vividos por aquela família destroçada pela presença demoníaca no corpo de uma jovem adolescente. Através de suas notas agudas e truques sonoros interessados na perfeição ao denotar agonia e sofrimento, os compositores carregaram bastante na dose de horror, sendo tão inquietante quanto à trilha de Lalo Schifrin, descartada na pós-produção. Inesquecível e apavorante, a trilha sonora de um dos maiores clássicos do horror tem também a singular Fantasy for Strings, de Hans Werner Henze, além das perturbadoras faixas Iraq, Polymorphia e Bee String Quartet. Uma trilha que todo cinéfilo deveria ter em sua coleção. O grande problema está na coragem de executá-la, tamanha a dimensão sonora a ecoar pelo estabelecimento que se propõe a contemplá-la. Você, caro leitor, aceita o desafio?

O Exorcista e Seu Legado: Quando a Memória Persiste

Antes do lançamento do conceituado O Exorcista, em 1973, dirigido com eficiência por William Friedkin, já havia uma série de produções sobre possessão demoníaca e presenças ocultas na indústria cinematográfica, no entanto, nada foi tão fenomenal nesta seara em comparação ao lançamento deste clássico do terror. Equipe técnica de primeira linha, linguagem do cinema em evolução constante, elenco de ótimos desempenhos dramáticos, roteiro inspirado num livro bem escrito, campanha publicitária meticulosamente planejada e um contexto histórico turbulento, ambiente ideal para a veiculação de narrativas deste tipo, numa esquematizada ebulição da crítica e da opinião pública.

O Exorcista, então, fez pelos filmes de exorcismo o que Tubarão, de Spielberg, fez pelos filmes de tubarões como máquinas assassinas. Antes do filme de Spielberg, a indústria já havia capitalizado em torno de monstros marinhos. Da mesma maneira, antes da possessão da garota interpretada por Linda Blair, Madre Joana dos Anjos e Os Demônios, por exemplo, já tinham tratado de maneira dramática, cruel e densa, a polêmica do ritual de exorcismo, salvos, obviamente, os seus devidos contextos narrativos internos, diferentes da trama de Friedkin, mas todos unificados por uma mesma abordagem: a expulsão de forças malignas que insistem em destruir a vida das pessoas supostamente possuídas.

de um clássico do cinema lançado em 1973. Mesmo que você não tenha assistido, provavelmente já deve ter lido algo sobre o filme O Exorcista,

Em 2017, William Friedkin lançou O Diabo e o Padre Amorth, documentário sobre a captação de um ritual de exorcismo real, na Itália, tendo como abertura da narrativa um breve passeio pelas locações e principais pontos das filmagens em 1973. Sem debater questões que escapam do escopo do documentário, isto é, se a possessão é um fenômeno religioso ou científico, o cineasta nos faz questionar o extenso legado de O Exorcista e a criação de um subgênero demarcado por características basilares quase sempre repetidas: fenômenos incomuns abalam uma existência cotidiana, problemas maiores deixam a todos em estado de alerta, os personagens buscam alternativas médicas, para logo depois, recorrer ao ritual religioso, tendo em vista o ato final de confrontação com o demônio, numa busca geral por libertação/ expulsão da entidade perseguidora.

de um clássico do cinema lançado em 1973. Mesmo que você não tenha assistido, provavelmente já deve ter lido algo sobre o filme O Exorcista,

Alguns filmes conseguiram tratar muito bem o tema. O Exorcismo de Emily Rose e Invocação do Mal são dois exemplos dignos do clássico, ambos responsáveis por emular elementos de 1973, mas adotar características narrativas próprias, indo além da mera cópia, o que não podemos afirmar das produções que apresentaremos mais adiante, um manancial de filmes oportunistas e conduzido de “qualquer jeito”, produções que nos remetem ao título deste ensaio: os filmes de exorcismo ainda funcionam? Em O Exorcismo de Emily Rose, temos a protagonista que nomeia a produção, Emily Rose (Jennifer Carpenter), uma jovem que deixou sua casa em uma região rural para cursar a faculdade. Um dia, sozinha em seu quarto no alojamento, ela tem uma alucinação assustadora, perdendo a consciência logo em seguida. Como seus surtos ficam cada vez mais frequentes, Emily, que é católica praticante, aceita ser submetida a uma sessão de exorcismo. Quem realiza a sessão é o sacerdote de sua paróquia, o padre Richard Moore (Tom Wilkinson).

de um clássico do cinema lançado em 1973. Mesmo que você não tenha assistido, provavelmente já deve ter lido algo sobre o filme O Exorcista,

Porém, Emily morre durante o exorcismo, o que faz com que o padre seja acusado de assassinato. Erin Bruner (Laura Linney), uma advogada famosa, aceita pegar a defesa do padre Moore em troca da garantia de sociedade em uma banca de advocacia. À medida que o processo transcorre o cinismo e o ateísmo de Erin são desafiados pela fé do padre Moore e também pelos eventos inexplicáveis em torno do caso. A dinâmica do julgamento e os debates entre o discurso religioso e a razão fizeram do filme um sucesso de crítica e bilheteria. Ao lado de Invocação do Mal, a produção figura como um dos melhores sucessores do clássico de William Friedkin. Ainda hoje, diversas produções tentam retomar o clássico dos anos 1970, seja pela temática ou por alguma cena que nos remete aos momentos de tensão e horror criado pelo cineasta William Friedkin e sua competente equipe de trabalho. Na próxima publicação sobre o legado deste clássico do cinema, levantarei algumas questões sobre o seu legado, continuidade das reflexões propostas pelo texto em questão, combinado? Das continuações (O Exorcista 2, 3 e O Início), aos mais recentes O Último Exorcismo Partes 1 e 2, Dominação, Stigmata, A Hora do Descarrego, a série homônima em duas temporadas, dentre outros. Até a próxima!

Leonardo Campos é Graduado e Mestre em Letras pela UFBA.
Crítico de Cinema, pesquisador, docente da UNIFTC e do Colégio Augusto Comte.
Autor da Trilogia do Tempo Crítico, livros publicados entre 2015 e 2018,
focados em leitura e análise da mídia: “Madonna Múltipla”,
“Como e Por Que Sou Crítico de Cinema” e “Êxodos – Travessias Críticas”.

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Clássicos da Sétima Arte

Pânico (2022)

O retorno de Ghostface é pura metalinguagem e o nosso crítico Leonardo Campos trouxe uma análise para você. Confira!

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aqueles que conhecem a franquia ou possuem o mínimo de conhecimento cinematográfico contemporâneo: quando lançado em 1996, Pânico
Fotos: Divulgação

Leonardo Campos

Já sabemos, ao menos aqueles que conhecem a franquia ou possuem o mínimo de conhecimento cinematográfico contemporâneo: quando lançado em 1996, Pânico foi um estrondo, fenomenal ao ganhar a crítica e o público aos poucos. O subgênero slasher que na época, passava por um período de decadência, tendo em O Mistério de Candyman e O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger (também de Wes Craven), dois dos raros bons momentos do Slasher Tardio (etapa de continuações frias, posteriores ao advento do boom slasher dos anos 1980. O roteirista Kevin Williamson, um profundo e confesso admirador Halloween: A Noite do Terror, conseguiu que seu texto chegasse ao criador de Freddy Krueger e um novo ícone do terror se estabeleceu: Ghostface. Assim começou uma rentável história. Pânico foi sagaz, diferenciado da maioria dos filmes deste segmento, numerosas referências típicas da cultura pop de sua década, com uma já clássica passagem de abertura com Drew Barrymore a responder questionamentos sobre Sexta-Feira 13, Halloween, A Hora do Pesadelo, dentre outros, um prazeroso feixe de diálogos que reverenciavam os fãs de filmes do tipo, geralmente destratados pela crítica especializada, quase sempre a considerá-los “cinema menor”.

Interessante observar que a metalinguagem, nesta época, já tinha sido discutida no âmbito slasher não apenas no empolgante retorno de Freddy Krueger e suas reflexões sobre o filme dentro dos filmes e o impacto do cinema na sociedade, mas também no mediano Popcorn: O Pesadelo Está de Volta, de 1991, uma narrativa divertida e inteligente, mas sem a execução estilosa de alguém do calibre de Wes Craven. A trama apresentava ao público um grupo de personagens inseridos num cinema que decide exibir filmes para um festival de horror, organizado por jovens estudantes de cinema que aos poucos, se tornam vítimas de um assassino impiedoso, influenciado por obscuros segredos do passado. Wes e Kevin, uma dupla que podemos chamar de dinâmica, alguns anos depois, retomaram com uma proposta metalinguística com um tom mais audacioso. Como resultado, entregaram um espetacular filme de horror com diálogos inteligentes, muitas referências e desempenhos dramáticos muito acima do que geralmente tínhamos no subgênero slasher.

Parte deste sucesso também se deu por conta do trio protagonista, composto por Sidney Prescott Neve Campbell, Gale Weathers e Dewey Riley, interpretados por Neve Campbell, Courtney Cox e David Arquette, respectivamente, personagens que estão de volta na trama de 2022, grandes responsáveis pela coerência, coesão e respeitabilidade do renascimento da onda de crimes sangrentos em Woodsboro. Sem o trio, creio, este novo Pânico seria apenas mais um bom filme de terror com ressonâncias do legado da franquia, não excelente como acabou se apresentando. Agora, caro leitor, depois deste breve, mas acredito, elucidativo panorama, sigamos com o retorno de Ghostface em 2022.

aqueles que conhecem a franquia ou possuem o mínimo de conhecimento cinematográfico contemporâneo: quando lançado em 1996, Pânico

Logo em sua já esperada cena de abertura, Tara Carpenter (Jenna Ortega) é a primeira vítima do psicopata. Ela atende ao chamado pelo telefone, mas percebe que as suas chances de sobreviver são remotas, pois desconhece as regras dos filmes questionados, afinal, a sua preferência é por narrativas como os superestimados A Bruxa, Hereditário, dentre outros, filmes que compõem a linha do que um determinado feixe de crítica contemporânea chama de pós-horror. Sua sobrevivência é incerta, afinal, o padrão é que as primeiras mortes sejam o aviso para o que pode vir em direção aos demais personagens. É uma passagem forte, violenta, talvez o ataque mais insano de todas as aberturas da franquia, ao menos no quesito deterioração do corpo alheio.

Os envolvidos no projeto, no entanto, preparam o público para uma surpresa. A jovem não morreu. Bastante debilitada, mas internada no hospital, o seu grupo de amigos logo arruma um jeito de avisar para a sua irmã, Sam Carpenter (Melissa Barrera), sobre o impiedoso ataque e, em seu deslocamento para Woodsboro. Pronto: o palco de tragédias está montado e a tenebrosa montanha-russa de emoções começa a ter os seus trilhos a se movimentar. Em sua estrutura inteligente, dinâmica, mordaz e ousada, a narrativa nos apresenta ao novo grupo de possíveis vítimas: Richie (Jack Quaid), Wes (Dylan Minnette), Mindy (Jasmin Savoy), Liv (Sonia Ammar), Amber (Mikey Madison) e Chad (Mason Gooding). Um deles (ou mais) pode ser o novo mascarado. Nós saberemos, ao passo que a trilha de corpos é estabelecida.

aqueles que conhecem a franquia ou possuem o mínimo de conhecimento cinematográfico contemporâneo: quando lançado em 1996, Pânico

Assim, aqueles que morrem deixam de habitar a lista de suspeitos para se direcionarem ao necrotério, alvos dos já mencionados ataques impiedosos do assassino, assertivos graças aos efeitos de maquiagem supervisionados pelo eficiente Jeff Goodwin. Um deles, Vince (Kyle Gallner), um stalker valentão e perseguidor de uma das jovens do tal grupo, também figura como um potencial suspeito, mas ao passo que a narrativa deslancha, por seu vínculo com alguém da memória trágica de Woodsboro, logo pode deixar a mencionada lista de possível algoz para fazer parte da coleção de vidas ceifadas pelo psicopata. Como habitual, muitas reviravoltas conduzem o roteiro, tudo em prol do último ato, momento que atinge um nível elevado de insanidade (e qualidade), um dos melhores de toda a franquia com finais sempre ótimos.

Depois dos primeiros ataques, com a sensação de insegurança no auge, Sam procura Dewey e clama por um mentor. Isolado num trailer e ainda entristecido após a separação com Gale, o ex-policial da cidade faz o mesmo que Laurie Strode no começo de Halloween (2018): se nega diante do pedido de ajuda dos jovens, mas não demora, abre mão e decide ser um colaborador. Ele contata Sidney e manda mensagens de texto para a ex-esposa. Assustada e angustiada, a final girl logo aparece em Woodsboro, pois conforme a sua justificativa para o retorno, não conseguirá dormir enquanto não aniquilar o novo mascarado. Gale, sempre conectada com seus interesses profissionais, midiática, mas contida, agora âncora de um programa televisivo novaiorquino, também retorna para a cobertura dos assassinatos, sem deixar de se preocupar, claro, com o policial, um homem por quem ainda nutre sentimentos.

aqueles que conhecem a franquia ou possuem o mínimo de conhecimento cinematográfico contemporâneo: quando lançado em 1996, Pânico

É com a chegada do trio que Pânico deixa de ser bom e se torna ótimo. Os veteranos exalam credibilidade ao tecido narrativo, pois nos conectam com o legado estabelecido por Wes Craven e Kevin Williamson em 1996, continuado em 1997, 1999 e 2011. Todos se propõem a travar uma intensa luta pela sobrevivência até o desfecho apoteótico, na mesma casa onde ocorreu o sangrento desfecho do primeiro filme, a residência de Stu, um dos psicopatas que ao lado de Billy Loomis, estabeleceu o horror em Woodsboro. O ex-namorado “monstro” de Sidney, por sinal, é uma figura que aqui ganha um retorno inesperado, por meio das alucinações de uma das personagens. Ele, cabe ressaltar, é parte sólida das motivações para o retorno dos crimes hediondos em Woodsboro. É o que o roteiro quer nos fazer acreditar. Será?

Judy (Marley Shelton), de Pânico 4, agora delegada, ressurge em alguns ótimos momentos da trama, com referências aos seus quadradinhos de limão, guloseimas que levava para Dewey no antecessor, alvo dos ciúmes da inquieta Gale Weathers. A proximidade estética e os demais aparatos de estruturação da narrativa, em especial, a montagem, conseguem se manter bastante próximos dos quatro filmes anteriores, acredito, por trazer de volta Marianne Maddalena, na posição de produtora executiva, cargo que divide com Kevin Williamson, membros que garantem uma nova versão para Pânico, ousada e irreverente, mas com ligações estéticas e dramáticas que estabelecem a devida correspondência com toda a franquia. Martin Bettinelli-Olpin e Tyler Gillet, na posição de diretores, conseguem, com talento esbanjado, dar conta da função que assumiram. Eles possuem como guia, o roteiro de James Vanderbilt e Guy Busick, dramaturgos inspirados nos personagens e argumentos de Kevin Williamson.

Pânico traz uma nova equipe de realizadores, todos com suas próprias assinaturas, donos de um estilo peculiar, mas respeitosos com o legado audiovisual da franquia, também algo já mencionado. Na direção de fotografia de Brett Jutkiewicz, a grande diferença da vez é a estratégia de movimentação da câmera, com deslocamentos conseguem emular o sadismo e a ironia de Ghostface em seus movimentos atrevidos e sarcásticos. Para as mortes se tornarem mais impactantes, o design de som do Formosa Group faz questão de delinear cada golpe desferido diante dos ataques sangrentos. O compositor Brian Tyler também entrega um bom trabalho, mesmo que não alcance a coesão sonora de Marco Beltrami, produzindo um som mais genérico, parecido com muitos outros filmes de terror, com seus metais e instrumentos de sopro em justaposição para criação de sons estarrecedores, conforme os violentos ataques de Ghostface. No design de produção de Chad Keith gerencia uma direção de arte preocupada com peculiaridades e uma cenografia envidraçada, própria para o estabelecimento da sensação de insegurança dos personagens.

Por fim, é bem quase certo que diante da nova empreitada, uma nova safra de filmes se estabeleça dentro da franquia. Espero, no entanto, que continuem honrando o patrimônio que é legado de Wes Craven, não é mesmo, leitores?

Leonardo Campos é Graduado e Mestre em Letras pela UFBA.
Crítico de Cinema, pesquisador, docente da UNIFTC e do Colégio Augusto Comte.
Autor da Trilogia do Tempo Crítico, livros publicados entre 2015 e 2018,
focados em leitura e análise da mídia: “Madonna Múltipla”,
“Como e Por Que Sou Crítico de Cinema” e “Êxodos – Travessias Críticas”.

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Clássicos da Sétima Arte

A Hora do Pesadelo (1984)

Freddy Krueger é um ícone sobrevivente na cultura pop, âmbito de produção que descarta tão rápido quanto constrói coisas

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Para quem conhece A Hora do Pesadelo, a resposta não é complexa. Freddy Krueger é um ícone sobrevivente na cultura pop, âmbito de produção que
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Leonardo Campos

Freddy Krueger é um antagonista slasher que dispensa grandes apresentações. Você, leitor, pode até não ter assistido aos filmes, mas provavelmente sabe quem é o maníaco que assassina jovens incautos no mundo dos sonhos. Dirigido e roteirizado por Wes Craven em 1984, o personagem surgiu quando Michael Myers havia dado um intervalo em sua matança e Jason Voorhees começava a apresentar alguns sinais de cansaço. Com longa estrada na cultura pop desde que surgiu pela primeira vez, o humorado e irônico vilão das garras afiadas, trajado com sua blusa de listras vermelhas e verdes, juntamente com seu inconfundível chapéu, assustou plateias no mundo inteiro e serviu de referência para diálogos metalinguísticos em diversos filmes desde os anos 1980, desde breves menções, como Transformers e Deadpool, às ilações no primeiro episódios da franquia Pânico, além da presença em episódios de Looney Tunes, Todo Mundo Odeia o Chris, Doug, Turma da Mônica, The Simpsons, dentre muitas outras narrativas.

O que faz deste vilão um personagem com legado tão extenso? Para quem conhece A Hora do Pesadelo, a resposta não é complexa. Freddy Krueger é um ícone sobrevivente na cultura pop, âmbito de produção que descarta tão rápido quanto constrói coisas. Isso porque é forte, apresenta diálogos humorados, mas repleto de elementos filosóficos, permite reflexões em torno de suas origens, dentre outras questões em torno da estrutura narrativa que o inseriu na história relativamente recente do cinema. Além de ser forte enquanto personagem, Freddy Krueger foi concebido pelo excelente trabalho de maquiagem da equipe de Kathryn Fenton, setor que ganhou visual mais impactante com os figurinos de Dana Lyman e elementos do design de produção de Gregg Fonseca, todos captados pela direção de fotografia de Jacques Haitkin, eficiente nas cenas de perseguição, adequada nos ângulos que apresentam o antagonista em posição de poder, além da iluminação ideal para passagens soturnas e ambivalentes.

Robert Englund, no papel que definiu a sua carreira, é também um dos responsáveis por tornar o personagem memorável. Eis o enredo: um grupo de amigos assombrados pelo mesmo monstro. Nancy (Heather Langenkamp), Tina (Amanda Wyss), Rod (Nick Corri) e Glen (Johnny Depp) descobrem que dividem o mesmo pesadelo todas as noites, perseguidos por uma figura sombria trajada da maneira descrita anteriormente. É uma imagem desagradável, assustadora com a pele queimada e garras com lâminas afiadas e ameaçadoras. Depois de investigar e buscar diálogo, descobrem que o seu nome é Freddy Krueger. As coincidências começam a se conectar, numa assustadora trajetória de sangue quando percebem que a presença monstruosa é parte de uma vingança sobrenatural que promete um rastro de horror sem precedentes em Springwood. Nancy, mais astuta que os demais pertencentes do ciclo, percebe que os adultos escondem um segredo obscuro sobre o assunto quando o nome do “monstro” é mencionado.

Em camadas que se revelam aos poucos, somos informados que Freddy Krueger foi liberado pela justiça corrupta da cidade, incapaz de dar ao ceifador de crianças o final que os pais de muitas vítimas desejavam. Assim, os justiceiros decidem, eles mesmos, coibirem as futuras ações de um homem transtornado mentalmente. É quando Freddy, impedido de seguir adiante, é queimado vivo, deixando esta vida para se tornar a demoníaca entidade habitante dos pesadelos dos jovens incitados em descobrir os segredos por debaixo do tapete daquela cidade. Ao passo que Freddy é revelado, começa a ganhar mais força e liberdade para habitar as zonas da realidade. Destruir esse monstro acompanhado de diálogos sádicos e repleto de trocadilhos será o trabalho de Nancy, uma das melhores final girl dos anos 1980.

Em seu rastro de sangue e pavor, Freddy Krueger protagoniza cenas marcantes, tais como o assassinato de Tina, arrastada pelas paredes repletas de sangue, a descida de Glenn pela cama que o suga e depois, expele jarros frenéticos de sangue para todo lado, além da famosa perseguição da abertura, com o antagonista e seus braços enormes. Memorável também são as garras de Krueger na parede do quarto de Nancy, cena retomada na primeira temporada de Stranger Things num acertado tom metalinguístico. São passagens que tangem aos elementos estéticos de A Hora do Pesadelo, filme que só envelheceu diante dos efeitos visuais, mas é algo que não impacta em seus aspectos dramáticos bem concebidos por Wes Craven no auge do seu talento enquanto cineasta e dramaturgo, realizador “autor”, consciente dos desdobramentos de todos os setores de produção de seu filme.

Charles Bernstein, responsável pela trilha sonora, edifica de maneira eficiente a música que acompanha os personagens, composição que muita gente, ainda hoje, acha arrepiante, em especial, a canção de ninar, tão inesquecível quanto os arranjos de John Carpenter para Halloween – A Noite do Terror, conduções musicais memoráveis, na seara dos filmes slasher. São poucas notas, mas a quantidade eficiente para se tornar o tema principal de toda a franquia, melodia arrepiante que dialoga com a imagem de Krueger, fortalecida mais adiante, durante e depois do término do filme, cristalizado para sempre em nosso imaginário. Ainda sobre tópicos sonoros, importante também o trabalho envolvente da equipe de Jess Soraci no design de som, parte da equipe técnica importante no desenvolvimento de um filme de terror.

Para a concepção de A Hora do Pesadelo, Wes Craven contou que emulou muitos elementos da sua vida, em especial, os seus medos de infância. Em texto de apresentação para o livro Never Sleep Again, de Thommy Huston, crítica genética bastante elucidativa do clássico slasher, o cineasta conta que tinha muitos pesadelos quando era criança. Ele sempre questionava a sua mãe sobre a possibilidade de acompanhá-lo nos sonhos e assim, ajuda-lo a resolver os conflitos desta seara assustadora de suas noites de sono. Objetiva e gentil, a sua mãe disse que “o sonho era o único lugar onde nós só podemos ir sozinhos”. Foi um momento amedrontador, mas fundamental para que nós, cinéfilos, ganhássemos anos depois, o filme com Freddy Krueger. Da janela do seu quarto que tinha vista para a rua onde um homem misterioso o assustou certa noite, ao se aproximar do vidro e olhar fixamente para Craven, enquanto tentava dormir, e os estudos sobre psicologia e sonhos, realizados durante a época de faculdade, a semente de Krueger atravessou um longo processo de germinação, por isso fixou-se tão bem quando teve a oportunidade de ganhar “vida” dentro da lógica mágica cinematográfica.

Ademais, ao longo de seus 91 minutos, A Hora do Pesadelo flerta com a ambivalência de seu desfecho que permite interpretações múltiplas. Teria sido um pesadelo coletivo de todas as pessoas da cidade, em especial, de Elm Street, reduto da classe média local e seus receios e inseguranças? Diferente de Jason, Michael ou qualquer outro assassino slasher, Freddy ataca as pessoas em seus pesadelos, algo mais difícil de escapar, pois tal como sabemos, não podemos comandar todos os aspectos desse ambiente onírico. Você, caro leitor, já deve ter tido um desses sonhos ruins, despencando de uma altura aterrorizante ou tendo que lidar com uma situação abominável, fora de seu controle, digamos, racional, não é mesmo? É com isso que A Hora do Pesadelo trabalha, um conjunto de conflitos estabelecidos diante de situações que muitas vezes fogem do nosso controle, matéria-prima básica para o desenvolvimento dramático que nos envolve e faz refletir e temer.

Vamos agora analisar o filme em pormenores. Preparados?

Na abertura deste slasher inovador, a equipe de Wes Craven destaca o modo de operação de Freddy Krueger na concepção de sua imagem aterrorizante. Um suéter de duas cores contrastantes, isto é, verde e vermelho, escolhidas cuidadosamente para os efeitos semióticos pretendidos pela narrativa e a confecção da icônica luva com garras afiadas, idealizada para destroçar, nos pesadelos, e, concomitantemente, na realidade, os jovens incautos de A Hora do Pesadelo. Design de som, trilha sonora e design de produção trabalham assertivamente para compor os elementos visuais atmosféricos que predominam ao longo de todo o filme.

Em seu primeiro encontro com Freddy Krueger, Tina atravessa uma aterrorizante jornada com muito uso de efeitos especiais, direção de fotografia com iluminação soturna e design de som que evidencia o perigo representado pelo antagonista dos pesadelos. Na esteira do legado de A Hora do Pesadelo, esta é uma das passagens mais emblemáticas e recorrentes quando o filme é referenciado na cultura pop.

Logo após o seu “amargo pesadelo” de Tina, acompanhamos uma passagem com atmosfera ainda onírica, nebulosa, na rua onde Freddy Krueger vai tornar a existência dos jovens da narrativa num pesadelo constante. As crianças que brincam de pular corda entoam a emblemática música tema, numa contagem numérica aterrorizante, responsável por reforçar os horrores do antagonista no passado e o seu retorno para o tempo presente. No carro vermelho, referência direta ao monstro das garras afiadas e ao seu caminho de sangue, os personagens incautos se apresentam para o espectador, vítimas de um pesadelo que parecerá não ter fim.

Num encontro entre os jovens para assistir filmes e comer pipoca, eles compartilham as coincidências em torno do mesmo pesadelo nas últimas noites. Cada um descreve Fredy Krueger e a similaridade das situações oníricas despertará a curiosidade de Heather, uma final girl com faro investigativo. Na sequência seguinte, um dos momentos de contato entre o antagonista e Heather, passagem também bastante referenciada na cultura pop.

Apesar de alguns efeitos especiais não surtirem o mesmo efeito da época, 1984, A Hora do Pesadelo traz sequências icônicas que tal como já mencionado, ganharam versões metalinguísticas em outros filmes, séries, videoclipes, etc. A cena em questão é parte do pesadelo de Tina, momento em que sua vida é aniquilada pelo antagonista com garras afiadas e mortais. Mais adiante, o design de som delineia o quão sádico é Freddy Krueger, figura que traça faíscas com suas garras e não poupa ninguém quando o assunto é o estabelecimento de sua vingança contra os jovens de Elm Street, algo devidamente explicado no desfecho.

Para quem conhece A Hora do Pesadelo, a resposta não é complexa. Freddy Krueger é um ícone sobrevivente na cultura pop, âmbito de produção que

Outra passagem memorável: Freddy Krueger ataca Tina e o seu namorado é quem leva a culpa pelo crime sangrento. Arrastada pelas paredes do quarto, a cena foi uma das mais trabalhosas para Wes Craven e teve releitura no assassinato da babá de Dylan, o filho de Heather, no também ótimo O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger. Inspirada nos efeitos de filmes como O Picolino, com seus cenários móveis e diferenciados, os realizadores de A Hora do Pesadelo capricharam na concepção e entregaram uma boa cena, ainda muito eficiente para os padrões do público contemporâneo.

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Nesta sequência, proposital ou não, a caminhada de Nancy se assemelha ao trilhar de Jamie Lee Curtis como Laurie Strode em Halloween: A Noite do Terror, de 1978, clássico de John Carpenter que ganhou ressonâncias na onda slasher dos anos 1980. A moça atravessa a rua tranquila, sem grandes dispersões e barulhos, até encontrar com o namorado de Tina, na posição de fugitivo. Mais adiante, outra sequência de pesadelo, desta vez, na escola. Cena também memorável e bastante reiterada em outros filmes, tais como a refilmagem de 2010 e o turbinado crossover de Freddy Krueger com Jason Vorhees, de Sexta-Feira 13.

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A famosa sequência do pesadelo na escola continua, com o cadáver de Tina ensanguentado, para o horror de Nancy. Na sala de aula, a perspectiva dos realizadores nos remete, mais uma vez, ao clássico momento de Jamie Lee Curtis também estudando, enquanto Michael Myers espreita do lado de fora. São construções estruturais diferentes, mas com mesma perspectiva.

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Duas passagens também emblemáticas: o banho de Nancy, ameaçada pela presença de Freddy Krueger em sua banheira, e a angustiante subida pelas escadas, momento em que o antagonista estabelece uma série de peripécias para a garota enfrentar, trechos que se aproxima do final apoteótico e dinâmico. Nas passagens exclusivamente oníricas, a direção de fotografia capricha no uso da luz azul, tendo em vista buscar o efeito imersivo desejado.

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A hora da verdade: Nancy sonha durante um exame e nesta dinâmica, traz o chapéu de Freddy Krueger para a realidade. Mais adiante, a sua mãe alcoólatra expõe a verdade para a filha: Freddy foi morto no passado, acusado de ter abusado dos jovens desta rua. Agora, sublimados pelos acontecimentos recalcados na mente, o grupo precisará se articular para sobreviver, algo que, no entanto, já não é mais viável para dois deles, aniquilados impiedosamente por Freddy.

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Interessante observar como A Hora do Pesadelo possui um manancial de cenas icônicas. Nestas passagens, temos um ataque de Freddy Krueger pelo telefone, tentativa de manter Nancy constantemente aterrorizada e, mais adiante, o momento em que o namorado da garota, interpretado por Johnny Depp, é sugado pela cama, numa das melhores passagens da produção.

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Como uma boa protagonista, Nancy percebe que precisará enfrentar de uma vez por todas o seu maior pesadelo. Para isso, prepara o campo de batalha e produz as suas próprias armadilhas, mantendo-se distante do comum na narrativa slasher, filmes que em geral, a mocinha depende do homem para salvar a si e aos demais. Com atmosfera que mescla sonho e realidade, a direção de fotografia trabalha assertivamente na composição da luz, um dos trunfos do filme.

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Deitada na cama, Nancy espera o antagonista aparecer em seus pesadelos, para assim trazê-lo para a realidade e eliminar de uma vez por todas o seu reinado de horror. Adiante, após uma angustiante sequência de batalha e perseguição, Nancy organiza o fim de seu algoz com o elemento que mais o aterroriza: o fogo. Freddy Krueger aparentemente é aniquilado, mas uma passagem final, aparentemente pesadelo, indica que as coisas não se encerraram tão fácil. O psicopata onírico retornaria, tantas vezes, em filmes sofríveis, até reencontrar o seu criador em 1993, no metalinguístico O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger, analisado em pormenores na próxima seção.

 

Leonardo Campos é Graduado e Mestre em Letras pela UFBA.
Crítico de Cinema, pesquisador, docente da UNIFTC e do Colégio Augusto Comte.
Autor da Trilogia do Tempo Crítico, livros publicados entre 2015 e 2018,
focados em leitura e análise da mídia: “Madonna Múltipla”,
“Como e Por Que Sou Crítico de Cinema” e “Êxodos – Travessias Críticas”.

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