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Clássicos da Sétima Arte

O Novo Pesadelo – O Retorno de Freddy Krueger

É necessária uma breve recapitulação do personagem na cultura cinematográfica entre os filmes de 1984 e 1994. Confira!

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Fotos: Divulgação

Leonardo Campos

Quando Wes Craven elaborou o projeto para o retorno para o seu irônico e sagaz antagonista das garras afiadas, O Novo Pesadelo – O Retorno de Freddy Krueger, lançado em 1994, o filme ponto de partida comemorava dez anos. O personagem havia passado por um extenso processo de desgastes no bojo da cultura pop e da indústria cultural, seara de produção que esmiúça tanto um tema ao ponto de qualquer tentativa de retorno ser enfrentada como algo repetitivo ou desnecessário. Com a sétima narrativa da franquia A Hora do Pesadelo, o veterano foi sábio ao desconsiderar qualquer coisa entre os capítulos dois e seis, tendo como foco a atriz que interpretou a final girl Nancy e os desdobramentos de Freddy Krueger em sua carreira. Antes de adentrar na análise da produção, creio que seja necessária uma breve recapitulação do personagem na cultura cinematográfica entre os filmes de 1984 e 1994.

No primeiro, Freddy começa a matar os jovens da Rua Elm Street e Nancy, juntamente com os seus amigos, busca uma alternativa de driblar os planos do monstro. Na continuação, o assassino dos pesadelos possui um jovem para fazê-lo cometer os seus crimes na “realidade”. Em sua terceira incursão, Freddy entra em combate com Nancy num hospital psiquiátrico, interessado em matar os sobreviventes da Rua Elm Street, enviados para o local numa tentativa dos familiares de salvaguardar as suas vidas ameaçadas. Ao longo do quarto filme, Freddy precisa enfrentar uma jovem com a sua trupe, os “guerreiros dos sonhos”, antecipação para o quinto filme, banal, ao retratar Krueger a atacar suas novas vítimas por meio dos pesadelos do feto da protagonista. No “último” embate, Freddy usa um sobrevivente de Springwood para descobrir o paradeiro de sua filha, jovem com novo nome e única a ter a capacidade de trancá-lo no inferno definitivamente.

Diante do exposto, temos bastante dispersão, narrativas burlescas demais, tentativas de humor que não funcionaram e a transformação do personagem numa piada ruim do cinema. Foi engajado com esta possibilidade de torná-lo mais forte e intenso que o realizador concebeu o retorno de Freddy Krueger. Tão magnético e instigante quanto o primeiro filme da franquia, a sétima incursão é um dos melhores exercícios da metalinguagem de toda a história do cinema, não apenas do subgênero slasher, mas numa análise mais panorâmica. Em parceria com Kevin Williamson, o cineasta Wes Craven adentraria dois anos depois no universo de Ghostface, outra obra-prima do cinema nos anos 1990, mas antes disso, fez muito bonito com o resgata de Freddy depois de tantas continuações ruins. Ao longo de seus 112 minutos, O Novo Pesadelo – O Retorno de Freddy Krueger não foca nas gravações de bastidores, erros e acertos da câmera, composição e contratação de elenco, dentre outras situações comuns de filmes metalinguísticos.

O seu foco é o impacto da ficção na vida dos atores que se tornam celebridades e como as fronteiras entre o que é realidade e o que é ficcional transforma-se em uma zona assustadoramente tênue. Também responsável pelo roteiro, Wes Craven nos conta a trajetória de Heather (Heather Langenkamp), uma mulher que se casou com Chase Porter (David Newson) e tem um filho, Dylan (Miko Hughes). Enquanto o marido exercer a função de supervisor de efeitos especiais para cinema, ela vive a temporada de mãe em tempo integral. Em Los Angeles, Heather precisa lidar com alguns terremotos frequentes, alegoria para a sua vida pessoal e estado psicológico, abalada pela presença constante de um fã obcecado que a liga constantemente e entoa a famosa música tema de Freddy Krueger, cenas que são acompanhadas pela condução musical de J. Peter Robinson na atmosférica trilha sonora.

Cansada disso tudo, a atriz decide que precisa ficar o mais longe de tudo isso, isto é, sem contato com pessoas e situações da vida midiática. A abertura do filme, no entanto, nos reforça que as coisas não serão tão fáceis como imaginado. São créditos iniciais que emulam a abertura do primeiro filme. Primeiro contemplamos as mãos de alguém que constrói uma luva com navalhas. Logo mais, arranca a sua mãe e o sangue se esparrama, tendo no fundo alguém que grita “corta”. Sabemos, então, ser os bastidores de um filme de terror. A situação entra em descontrole quando a mão se movimenta sozinha e sai perambulando por trechos do set de filmagens, até chegar em um dos membros da equipe e matá-lo violentamente. A histeria é seguida de Heather despertando de seu pesadelo, com a casa sacudida por um abalo sísmico violento.

Há uma sensação estranha em torno de sua realidade, algo que será reforçado apenas adiante, com a chegada de Freddy Krueger a se apresentar, maquiado pela equipe de Howard Berger, excepcional em seu trabalho, reforçado pelo design de som supervisionado por Paul B. Klay, cuidadoso no tilintar as garras do antagonista que é uma ameaça sobrenatural, mas também faz estragos físicos. Ainda não sabemos quais são os planos de Freddy Krueger, mas tudo indica que será engajado para uma batalha épica. A trama continua com os demais conflitos na vida da personagem. Ela é constantemente citada na TV, o seu filho, Dylan, sofre de sonambulismo e apresenta comportamento instável, com algumas crises preocupantes. Tudo fica ainda pior quando o seu marido morre num acidente de carro provocado no retorno de uma viagem.

Dizem que ele dormiu no volante, mas Heather desconfia de outra versão, principalmente depois que pede para ver o cadáver. Há algo estranho, como se o personagem da ficção estivesse presente na vida real, trajado pelos figurinos de Mary Jane Fort, eficientes na concepção do monstro para a nova era. Destaque também para a direção de fotografia de Mark Irwin, cuidadosa na captação dos espaços, bem como no posicionamento dos personagens e na iluminação de algumas passagens, em especial, na assustadora peça que um programa televisivo faz com Heather durante uma entrevista, ao levar Robert Englund para brincar com a atriz e divertir a plateia.  Convidada para voltar aos filmes, Heather demonstra desinteresse.

Assustada com tudo que acontece em sua volta, ela decide conversar com Wes Craven, o diretor do primeiro filme em que atuou. Eles refletem a condição do personagem, o legado da série e o cineasta diz que talvez Freddy Krueger tenha ganhado força descomunal e saído das malhas ficcionais para exercer o seu papel demoníaco na realidade. Aterrorizada e com ameaças cada vez mais próximas, tal como a morte de Julie (Tracy Minderdorff), cena muito bem orquestrada e que referencia Tina, a ser arrastada pelas paredes no primeiro filme, Heather precisa lutar pela sua vida e para conter Krueger e suas garras afiadas, focadas em agarrar o filho da atriz para atrai-la ao seu reinado de terror. Serpentes, fogo, espaços sinuosos, armas brancas afiadas e outros itens do design de produção de Cynthia Kay Charette transformam o último ato numa representação visual formidável do que pode ser considerado o espaço cênico de um pesadelo.

Com situações que beiram o pesadelo e a realidade, perseguições de todos os lados, das sobrenaturais aos elementos reais que a pressionam, a final girl de 1984 cumpre o seu papel protagonista e aceita o embate com Freddy ao adentrar em seu mundo infernal, num desfecho empolgante e com o final já esperado pelo público: o enjaulamento do antagonista nas profundezas, com retorno apenas no crossover com o monstro de Sexta-Feira 13, lançado em 2003, o exagerado e divertido Freddy vs. Jason, filme desconectado do universo de Nancy, focado exatamente no legado dos seus personagens principais. Se houvesse apenas esse filme e o primeiro, Freddy Krueger seria um personagem com o mesmo legado impactante. Mesmo no exercício do papel de fãs, é preciso reconhecer que a franquia A Hora do Pesadelo sobreviveria tranquilamente sem todas as continuações entre o segundo e o sexto filme, completamente descartáveis e nulos como entretenimento, tamanha a “ruindade” de suas estruturas narrativas.

Agora, vamos para uma análise em pormenores do filme, preparados?

Em seu costumeiro bom trabalho metalinguístico, Wes Craven abre O Novo Pesadelo com os bastidores de gravação do filme dentro do filme. A confecção da lendária luva e a presença do elemento fogo demonstram um paralelo com o preâmbulo da produção de 1984. Os envolvidos na empreitada testam a fotografia, os efeitos especiais e maquiagem. Esta é a tônica de todo o filme: demonstrar para o público a consciência referencial e inserir o espectador no clima nostálgico proposto pela narrativa.

Ainda na mesma passagem, Wes Craven faz uma de suas primeiras participações, encarnando em cena o papel de diretor responsável pelo filme dentro do filme. Na imagem abaixo, Dylan é carregado pelo pai e passeia pelos bastidores. Eles sequer imaginam que Freddy Krueger está preparado para retornar, mais uma vez, agora, sob o crivo de seu papel criador.

As coisas parecem não caminhar muito bem em casa. Dylan demonstra um comportamento que será desenvolvido perigosamente ao passo que a narrativa evolui. Ameaçados pelos terremotos que assolam a cidade, algo que de fato acontecia enquanto os envolvidos filmavam O Novo Pesadelo. Na imagem com os danos causados pelo evento sísmico, uma alusão ao horror de Freddy Krueger toma conta da tela: as referências estão nas garras do antagonista, um trabalho da cenografia que ao lado da direção de arte e dos adereços, tornam o filme uma produção assertiva em sua dinâmica visual.

A protagonista Heather, a Nancy do primeiro filme, agora de volta como ela mesma, recebe ligações estranhas e precisa lidar com o comportamento estranho de seu filho. Aparentemente, o garoto é ameaçado pela presença de Freddy Krueger, entidade interessada em sair da zona em que se encontra para estabelecer o seu reino de horror na realidade. Afastada do gênero, Heather recebe trotes constantes de um fã insano, interessado em desestabilizar o seu cotidiano.

Convidada para participar de um programa televisivo, Heather debate com o apresentador o legado e o impacto cultural de Freddy Krueger. Na plateia, os fãs demonstram a afeição que possuem diante do personagem icônico. Camisetas, faixas, colecionáveis e outros produtos integram a passagem, encerrada com a chegada inesperada de Robert Englund, o intérprete de Freddy Krueger, convidado para fazer uma surpresa para a atriz que neste momento, já não se encontra tão bem diante das pequenas crises de seu filho em casa, comportamento que evoluirá para uma jornada desesperada ao passo que o filme avança. Aqui, a famosa música tema e algumas incursões da direção de fotografia emulam cenas de produções anteriores da franquia.

Após a gravação do programa, Heather reencontra Robert Englund nos bastidores, desta vez, sem os trajes e maquiagem alusivos ao antagonista Freddy Krueger. Ambos falam de perspectivas e compartilham sonhos estranhos que ocorrem com certa frequência. Em passagem pelos escritórios da New Line, a “casa” de Freddy, Heather reencontra antigos realizadores que desejam a sua presença em uma nova incursão de A Hora do Pesadelo. Krueger está morto? Sim, responde o produtor, mas os fãs querem mais e assim, os envolvidos criaram uma história nova e incrível, tendo Heather como protagonista.

No escritório da New Line Cinema, Heather reencontra Bob Shaye, o produtor da franquia A Hora do Pesadelo. O personagem descreve em detalhes o projeto para a nova incursão de Freddy Krueger no cinema, mas Heather é firme ao dizer que não quer mais se ver vinculada aos filmes de terror. Ele expõe questões sobre cachê, visibilidade, mas a atriz não parece confortável para reencontrar o antagonista da luva com lâminas afiadas. No ambiente, a direção de arte atua forte na inserção de adereços que demonstram o extenso legado de Freddy na era da reprodutibilidade e da cultura dos fãs. Este é um dos pontos mais primorosos do filme: o cuidado com os detalhes visuais e a concepção de elementos referenciais.

Quando Wes Craven elaborou o projeto para o retorno para o seu irônico e sagaz antagonista das garras afiadas, O Novo Pesadelo – O Retorno

A direção de fotografia não deixa de captar, constantemente, detalhes que nos remetem ao imperioso legado visual de Freddy Krueger na cultura pop. Ainda em conversa com Bob Shaye, Heather é informada que o seu marido, também um profissional de cinema, tinha sido escalado para compor a equipe do novo filme e já trabalhava na concepção do novo protótipo da luva do antagonista, notícia que toma Heather de surpresa e a faz sair do local desconfortável.

Quando Wes Craven elaborou o projeto para o retorno para o seu irônico e sagaz antagonista das garras afiadas, O Novo Pesadelo – O Retorno

Dylan apresenta um comportamento cada vez mais estranho e insiste em assistir ao filme A Hora do Pesadelo, como se estivesse hipnotizado pelas imagens da produção de 1984. Heather chega em casa após a reunião com Bob Shaye e encontra o filho tendo uma das crises que se tornaram habituais. Abaixo, o protótipo da nova luva de Freddy Krueger, elaborada pelo marido de Heather, figura ficcional que mais adiante, perderá a vida para o antagonista dos pesadelos.

Quando Wes Craven elaborou o projeto para o retorno para o seu irônico e sagaz antagonista das garras afiadas, O Novo Pesadelo – O Retorno

A angustiante sequência da primeira morte. Heather perde o seu marido. Ele retornava para casa, tendo em vista assessorar a esposa diante das crises de Dylan, mas não consegue encontrar o seu caminho por conta de um ataque de Freddy Krueger. No necrotério, Heather é levada para fazer o reconhecimento do corpo e, para sua surpresa, descobre que o principal ferimento do acidente parece realizado por garras semelhante ao que o antagonista de A Hora do Pesadelo fazia em seus filmes. Questionando a sua sanidade, a atriz começa a temer de verdade e inicia a sua jornada de enfrentamento com o maníaco dos pesadelos.

Quando Wes Craven elaborou o projeto para o retorno para o seu irônico e sagaz antagonista das garras afiadas, O Novo Pesadelo – O Retorno

Freddy Krueger e sua astúcia: Heather não encontra paz nem no enterro do marido. Abalada, as pessoas inicialmente acham que é desdobramento do luto, mas logo adiante, a sanidade da personagem é colocada em xeque. Adiante, Dylan continua a sua jornada obsessiva e acorda no meio da madrugada para assistir ao clássico A Hora do Pesadelo. Assustada, Nancy decide intervir, mas o filho demonstra um comportamento ainda mais agressivo.

Quando Wes Craven elaborou o projeto para o retorno para o seu irônico e sagaz antagonista das garras afiadas, O Novo Pesadelo – O Retorno

Cada vez mais agressivo, Dylan é encaminhado para dormir. A direção de fotografia trabalha com tons azulados em sua iluminação, estabelecendo assim um clima soturno e onírico, definição cabal da atmosfera desta franquia sobre pesadelos mortais. Heather já está convicta do espiral de emoções que a guiará nos próximos dias. O sobrenatural se estabelece na realidade, pois conforme a imagem, o garoto assistia aos trechos de A Hora do Pesadelo com a televisão desconectada da tomada.

Quando Wes Craven elaborou o projeto para o retorno para o seu irônico e sagaz antagonista das garras afiadas, O Novo Pesadelo – O Retorno

Freddy Krueger se aproxima e a atmosfera, ainda azulada, reforça o caráter onírico da sua presença maligna. Heather tem outro encontro com o antagonista, agora, prenúncio da montanha-russa de emoções que se desdobra até o desfecho. Dylan, em plena madrugada, caminha pela casa cantando a clássica música tema do filme e deixa a sua mãe aterrorizada. Numa manifestação inesperada, mostra todo o potencial manipulador de Freddy e fere a sua mãe com facas adaptadas em seus dedos, tal como a luva do monstro. O caminho para o hospital é garantido e neste espaço, o terror vai ganhar protagonismo com novas mortes.

Quando Wes Craven elaborou o projeto para o retorno para o seu irônico e sagaz antagonista das garras afiadas, O Novo Pesadelo – O Retorno

Aqui, o design de produção gerencia a direção de arte e a cenografia para criar espaços que emulem os elementos visuais da franquia e crie uma identidade com as garras de Freddy Krueger, onipresente também em pequenas passagens que nos remetem ao seu reinado de terror. Na cena abaixo, Heather recebe uma ligação e a clássica cena do primeiro filme, da língua que sai pelo telefone, se repete, deixando-a cada vez mais atordoada.

Quando Wes Craven elaborou o projeto para o retorno para o seu irônico e sagaz antagonista das garras afiadas, O Novo Pesadelo – O Retorno

Lin Shaye, irmã de Bob, o produtor, faz uma pequena participação como enfermeira no momento de atendimento de Dylan no hospital. Heather, estarrecida, procura Wes Craven para compreender o conteúdo do roteiro de seu novo filme. O diretor narra que tem tido pesadelos terríveis e o desaguar terapêutico tem sido o texto dramático. Eles debatem a presença de Freddy Krueger e, consequentemente, expõe pela metalinguagem o legado e o impacto cultural deste personagem intrigante e com presença firme na cultura pop.

Quando Wes Craven elaborou o projeto para o retorno para o seu irônico e sagaz antagonista das garras afiadas, O Novo Pesadelo – O Retorno

No hospital, a sanidade de Heather é questionada. Será que ela tem deixado o seu filho assistir aos filmes de terror que protagonizou? Num momento que faz referência ao assassinato de Tina em A Hora do Pesadelo, a babá de Dylan é impiedosamente aniquilada por Freddy Krueger, agora forte e com destreza para estabelecer o seu reinado de horror. Faltam poucos instantes para a narrativa ser encerrada e Heather precisa lutar com todas as suas forças para liberar a si e ao seu filho das terríveis forças do mal desta criatura aterrorizante.

Quando Wes Craven elaborou o projeto para o retorno para o seu irônico e sagaz antagonista das garras afiadas, O Novo Pesadelo – O Retorno

Na linha do conto popular de João e Maria, Heather segue os caminhos dos comprimidos indutores do sono para encontrar Freddy Krueger em seu território. O maligno personagem já levou Dylan e agora é o momento da batalha final. Lá, o antagonista é derrotado pelo uso do elemento que mais o deixa temeroso: as chamas ardentes do fogo, num trecho que encerra a jornada e sob o crivo de Wes Craven, é a última incursão de Freddy Krueger até o marombado Freddy Vs. Jason e a razoável refilmagem de A Hora do Pesadelo, lançada em 2010.

Leonardo Campos é Graduado e Mestre em Letras pela UFBA.
Crítico de Cinema, pesquisador, docente da UNIFTC e do Colégio Augusto Comte.
Autor da Trilogia do Tempo Crítico, livros publicados entre 2015 e 2018,
focados em leitura e análise da mídia: “Madonna Múltipla”,
“Como e Por Que Sou Crítico de Cinema” e “Êxodos – Travessias Críticas”.

Clássicos da Sétima Arte

Pânico (2022)

O retorno de Ghostface é pura metalinguagem e o nosso crítico Leonardo Campos trouxe uma análise para você. Confira!

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aqueles que conhecem a franquia ou possuem o mínimo de conhecimento cinematográfico contemporâneo: quando lançado em 1996, Pânico
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Leonardo Campos

Já sabemos, ao menos aqueles que conhecem a franquia ou possuem o mínimo de conhecimento cinematográfico contemporâneo: quando lançado em 1996, Pânico foi um estrondo, fenomenal ao ganhar a crítica e o público aos poucos. O subgênero slasher que na época, passava por um período de decadência, tendo em O Mistério de Candyman e O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger (também de Wes Craven), dois dos raros bons momentos do Slasher Tardio (etapa de continuações frias, posteriores ao advento do boom slasher dos anos 1980. O roteirista Kevin Williamson, um profundo e confesso admirador Halloween: A Noite do Terror, conseguiu que seu texto chegasse ao criador de Freddy Krueger e um novo ícone do terror se estabeleceu: Ghostface. Assim começou uma rentável história. Pânico foi sagaz, diferenciado da maioria dos filmes deste segmento, numerosas referências típicas da cultura pop de sua década, com uma já clássica passagem de abertura com Drew Barrymore a responder questionamentos sobre Sexta-Feira 13, Halloween, A Hora do Pesadelo, dentre outros, um prazeroso feixe de diálogos que reverenciavam os fãs de filmes do tipo, geralmente destratados pela crítica especializada, quase sempre a considerá-los “cinema menor”.

Interessante observar que a metalinguagem, nesta época, já tinha sido discutida no âmbito slasher não apenas no empolgante retorno de Freddy Krueger e suas reflexões sobre o filme dentro dos filmes e o impacto do cinema na sociedade, mas também no mediano Popcorn: O Pesadelo Está de Volta, de 1991, uma narrativa divertida e inteligente, mas sem a execução estilosa de alguém do calibre de Wes Craven. A trama apresentava ao público um grupo de personagens inseridos num cinema que decide exibir filmes para um festival de horror, organizado por jovens estudantes de cinema que aos poucos, se tornam vítimas de um assassino impiedoso, influenciado por obscuros segredos do passado. Wes e Kevin, uma dupla que podemos chamar de dinâmica, alguns anos depois, retomaram com uma proposta metalinguística com um tom mais audacioso. Como resultado, entregaram um espetacular filme de horror com diálogos inteligentes, muitas referências e desempenhos dramáticos muito acima do que geralmente tínhamos no subgênero slasher.

Parte deste sucesso também se deu por conta do trio protagonista, composto por Sidney Prescott Neve Campbell, Gale Weathers e Dewey Riley, interpretados por Neve Campbell, Courtney Cox e David Arquette, respectivamente, personagens que estão de volta na trama de 2022, grandes responsáveis pela coerência, coesão e respeitabilidade do renascimento da onda de crimes sangrentos em Woodsboro. Sem o trio, creio, este novo Pânico seria apenas mais um bom filme de terror com ressonâncias do legado da franquia, não excelente como acabou se apresentando. Agora, caro leitor, depois deste breve, mas acredito, elucidativo panorama, sigamos com o retorno de Ghostface em 2022.

aqueles que conhecem a franquia ou possuem o mínimo de conhecimento cinematográfico contemporâneo: quando lançado em 1996, Pânico

Logo em sua já esperada cena de abertura, Tara Carpenter (Jenna Ortega) é a primeira vítima do psicopata. Ela atende ao chamado pelo telefone, mas percebe que as suas chances de sobreviver são remotas, pois desconhece as regras dos filmes questionados, afinal, a sua preferência é por narrativas como os superestimados A Bruxa, Hereditário, dentre outros, filmes que compõem a linha do que um determinado feixe de crítica contemporânea chama de pós-horror. Sua sobrevivência é incerta, afinal, o padrão é que as primeiras mortes sejam o aviso para o que pode vir em direção aos demais personagens. É uma passagem forte, violenta, talvez o ataque mais insano de todas as aberturas da franquia, ao menos no quesito deterioração do corpo alheio.

Os envolvidos no projeto, no entanto, preparam o público para uma surpresa. A jovem não morreu. Bastante debilitada, mas internada no hospital, o seu grupo de amigos logo arruma um jeito de avisar para a sua irmã, Sam Carpenter (Melissa Barrera), sobre o impiedoso ataque e, em seu deslocamento para Woodsboro. Pronto: o palco de tragédias está montado e a tenebrosa montanha-russa de emoções começa a ter os seus trilhos a se movimentar. Em sua estrutura inteligente, dinâmica, mordaz e ousada, a narrativa nos apresenta ao novo grupo de possíveis vítimas: Richie (Jack Quaid), Wes (Dylan Minnette), Mindy (Jasmin Savoy), Liv (Sonia Ammar), Amber (Mikey Madison) e Chad (Mason Gooding). Um deles (ou mais) pode ser o novo mascarado. Nós saberemos, ao passo que a trilha de corpos é estabelecida.

aqueles que conhecem a franquia ou possuem o mínimo de conhecimento cinematográfico contemporâneo: quando lançado em 1996, Pânico

Assim, aqueles que morrem deixam de habitar a lista de suspeitos para se direcionarem ao necrotério, alvos dos já mencionados ataques impiedosos do assassino, assertivos graças aos efeitos de maquiagem supervisionados pelo eficiente Jeff Goodwin. Um deles, Vince (Kyle Gallner), um stalker valentão e perseguidor de uma das jovens do tal grupo, também figura como um potencial suspeito, mas ao passo que a narrativa deslancha, por seu vínculo com alguém da memória trágica de Woodsboro, logo pode deixar a mencionada lista de possível algoz para fazer parte da coleção de vidas ceifadas pelo psicopata. Como habitual, muitas reviravoltas conduzem o roteiro, tudo em prol do último ato, momento que atinge um nível elevado de insanidade (e qualidade), um dos melhores de toda a franquia com finais sempre ótimos.

Depois dos primeiros ataques, com a sensação de insegurança no auge, Sam procura Dewey e clama por um mentor. Isolado num trailer e ainda entristecido após a separação com Gale, o ex-policial da cidade faz o mesmo que Laurie Strode no começo de Halloween (2018): se nega diante do pedido de ajuda dos jovens, mas não demora, abre mão e decide ser um colaborador. Ele contata Sidney e manda mensagens de texto para a ex-esposa. Assustada e angustiada, a final girl logo aparece em Woodsboro, pois conforme a sua justificativa para o retorno, não conseguirá dormir enquanto não aniquilar o novo mascarado. Gale, sempre conectada com seus interesses profissionais, midiática, mas contida, agora âncora de um programa televisivo novaiorquino, também retorna para a cobertura dos assassinatos, sem deixar de se preocupar, claro, com o policial, um homem por quem ainda nutre sentimentos.

aqueles que conhecem a franquia ou possuem o mínimo de conhecimento cinematográfico contemporâneo: quando lançado em 1996, Pânico

É com a chegada do trio que Pânico deixa de ser bom e se torna ótimo. Os veteranos exalam credibilidade ao tecido narrativo, pois nos conectam com o legado estabelecido por Wes Craven e Kevin Williamson em 1996, continuado em 1997, 1999 e 2011. Todos se propõem a travar uma intensa luta pela sobrevivência até o desfecho apoteótico, na mesma casa onde ocorreu o sangrento desfecho do primeiro filme, a residência de Stu, um dos psicopatas que ao lado de Billy Loomis, estabeleceu o horror em Woodsboro. O ex-namorado “monstro” de Sidney, por sinal, é uma figura que aqui ganha um retorno inesperado, por meio das alucinações de uma das personagens. Ele, cabe ressaltar, é parte sólida das motivações para o retorno dos crimes hediondos em Woodsboro. É o que o roteiro quer nos fazer acreditar. Será?

Judy (Marley Shelton), de Pânico 4, agora delegada, ressurge em alguns ótimos momentos da trama, com referências aos seus quadradinhos de limão, guloseimas que levava para Dewey no antecessor, alvo dos ciúmes da inquieta Gale Weathers. A proximidade estética e os demais aparatos de estruturação da narrativa, em especial, a montagem, conseguem se manter bastante próximos dos quatro filmes anteriores, acredito, por trazer de volta Marianne Maddalena, na posição de produtora executiva, cargo que divide com Kevin Williamson, membros que garantem uma nova versão para Pânico, ousada e irreverente, mas com ligações estéticas e dramáticas que estabelecem a devida correspondência com toda a franquia. Martin Bettinelli-Olpin e Tyler Gillet, na posição de diretores, conseguem, com talento esbanjado, dar conta da função que assumiram. Eles possuem como guia, o roteiro de James Vanderbilt e Guy Busick, dramaturgos inspirados nos personagens e argumentos de Kevin Williamson.

Pânico traz uma nova equipe de realizadores, todos com suas próprias assinaturas, donos de um estilo peculiar, mas respeitosos com o legado audiovisual da franquia, também algo já mencionado. Na direção de fotografia de Brett Jutkiewicz, a grande diferença da vez é a estratégia de movimentação da câmera, com deslocamentos conseguem emular o sadismo e a ironia de Ghostface em seus movimentos atrevidos e sarcásticos. Para as mortes se tornarem mais impactantes, o design de som do Formosa Group faz questão de delinear cada golpe desferido diante dos ataques sangrentos. O compositor Brian Tyler também entrega um bom trabalho, mesmo que não alcance a coesão sonora de Marco Beltrami, produzindo um som mais genérico, parecido com muitos outros filmes de terror, com seus metais e instrumentos de sopro em justaposição para criação de sons estarrecedores, conforme os violentos ataques de Ghostface. No design de produção de Chad Keith gerencia uma direção de arte preocupada com peculiaridades e uma cenografia envidraçada, própria para o estabelecimento da sensação de insegurança dos personagens.

Por fim, é bem quase certo que diante da nova empreitada, uma nova safra de filmes se estabeleça dentro da franquia. Espero, no entanto, que continuem honrando o patrimônio que é legado de Wes Craven, não é mesmo, leitores?

Leonardo Campos é Graduado e Mestre em Letras pela UFBA.
Crítico de Cinema, pesquisador, docente da UNIFTC e do Colégio Augusto Comte.
Autor da Trilogia do Tempo Crítico, livros publicados entre 2015 e 2018,
focados em leitura e análise da mídia: “Madonna Múltipla”,
“Como e Por Que Sou Crítico de Cinema” e “Êxodos – Travessias Críticas”.

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A Hora do Pesadelo (1984)

Freddy Krueger é um ícone sobrevivente na cultura pop, âmbito de produção que descarta tão rápido quanto constrói coisas

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Para quem conhece A Hora do Pesadelo, a resposta não é complexa. Freddy Krueger é um ícone sobrevivente na cultura pop, âmbito de produção que
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Leonardo Campos

Freddy Krueger é um antagonista slasher que dispensa grandes apresentações. Você, leitor, pode até não ter assistido aos filmes, mas provavelmente sabe quem é o maníaco que assassina jovens incautos no mundo dos sonhos. Dirigido e roteirizado por Wes Craven em 1984, o personagem surgiu quando Michael Myers havia dado um intervalo em sua matança e Jason Voorhees começava a apresentar alguns sinais de cansaço. Com longa estrada na cultura pop desde que surgiu pela primeira vez, o humorado e irônico vilão das garras afiadas, trajado com sua blusa de listras vermelhas e verdes, juntamente com seu inconfundível chapéu, assustou plateias no mundo inteiro e serviu de referência para diálogos metalinguísticos em diversos filmes desde os anos 1980, desde breves menções, como Transformers e Deadpool, às ilações no primeiro episódios da franquia Pânico, além da presença em episódios de Looney Tunes, Todo Mundo Odeia o Chris, Doug, Turma da Mônica, The Simpsons, dentre muitas outras narrativas.

O que faz deste vilão um personagem com legado tão extenso? Para quem conhece A Hora do Pesadelo, a resposta não é complexa. Freddy Krueger é um ícone sobrevivente na cultura pop, âmbito de produção que descarta tão rápido quanto constrói coisas. Isso porque é forte, apresenta diálogos humorados, mas repleto de elementos filosóficos, permite reflexões em torno de suas origens, dentre outras questões em torno da estrutura narrativa que o inseriu na história relativamente recente do cinema. Além de ser forte enquanto personagem, Freddy Krueger foi concebido pelo excelente trabalho de maquiagem da equipe de Kathryn Fenton, setor que ganhou visual mais impactante com os figurinos de Dana Lyman e elementos do design de produção de Gregg Fonseca, todos captados pela direção de fotografia de Jacques Haitkin, eficiente nas cenas de perseguição, adequada nos ângulos que apresentam o antagonista em posição de poder, além da iluminação ideal para passagens soturnas e ambivalentes.

Robert Englund, no papel que definiu a sua carreira, é também um dos responsáveis por tornar o personagem memorável. Eis o enredo: um grupo de amigos assombrados pelo mesmo monstro. Nancy (Heather Langenkamp), Tina (Amanda Wyss), Rod (Nick Corri) e Glen (Johnny Depp) descobrem que dividem o mesmo pesadelo todas as noites, perseguidos por uma figura sombria trajada da maneira descrita anteriormente. É uma imagem desagradável, assustadora com a pele queimada e garras com lâminas afiadas e ameaçadoras. Depois de investigar e buscar diálogo, descobrem que o seu nome é Freddy Krueger. As coincidências começam a se conectar, numa assustadora trajetória de sangue quando percebem que a presença monstruosa é parte de uma vingança sobrenatural que promete um rastro de horror sem precedentes em Springwood. Nancy, mais astuta que os demais pertencentes do ciclo, percebe que os adultos escondem um segredo obscuro sobre o assunto quando o nome do “monstro” é mencionado.

Em camadas que se revelam aos poucos, somos informados que Freddy Krueger foi liberado pela justiça corrupta da cidade, incapaz de dar ao ceifador de crianças o final que os pais de muitas vítimas desejavam. Assim, os justiceiros decidem, eles mesmos, coibirem as futuras ações de um homem transtornado mentalmente. É quando Freddy, impedido de seguir adiante, é queimado vivo, deixando esta vida para se tornar a demoníaca entidade habitante dos pesadelos dos jovens incitados em descobrir os segredos por debaixo do tapete daquela cidade. Ao passo que Freddy é revelado, começa a ganhar mais força e liberdade para habitar as zonas da realidade. Destruir esse monstro acompanhado de diálogos sádicos e repleto de trocadilhos será o trabalho de Nancy, uma das melhores final girl dos anos 1980.

Em seu rastro de sangue e pavor, Freddy Krueger protagoniza cenas marcantes, tais como o assassinato de Tina, arrastada pelas paredes repletas de sangue, a descida de Glenn pela cama que o suga e depois, expele jarros frenéticos de sangue para todo lado, além da famosa perseguição da abertura, com o antagonista e seus braços enormes. Memorável também são as garras de Krueger na parede do quarto de Nancy, cena retomada na primeira temporada de Stranger Things num acertado tom metalinguístico. São passagens que tangem aos elementos estéticos de A Hora do Pesadelo, filme que só envelheceu diante dos efeitos visuais, mas é algo que não impacta em seus aspectos dramáticos bem concebidos por Wes Craven no auge do seu talento enquanto cineasta e dramaturgo, realizador “autor”, consciente dos desdobramentos de todos os setores de produção de seu filme.

Charles Bernstein, responsável pela trilha sonora, edifica de maneira eficiente a música que acompanha os personagens, composição que muita gente, ainda hoje, acha arrepiante, em especial, a canção de ninar, tão inesquecível quanto os arranjos de John Carpenter para Halloween – A Noite do Terror, conduções musicais memoráveis, na seara dos filmes slasher. São poucas notas, mas a quantidade eficiente para se tornar o tema principal de toda a franquia, melodia arrepiante que dialoga com a imagem de Krueger, fortalecida mais adiante, durante e depois do término do filme, cristalizado para sempre em nosso imaginário. Ainda sobre tópicos sonoros, importante também o trabalho envolvente da equipe de Jess Soraci no design de som, parte da equipe técnica importante no desenvolvimento de um filme de terror.

Para a concepção de A Hora do Pesadelo, Wes Craven contou que emulou muitos elementos da sua vida, em especial, os seus medos de infância. Em texto de apresentação para o livro Never Sleep Again, de Thommy Huston, crítica genética bastante elucidativa do clássico slasher, o cineasta conta que tinha muitos pesadelos quando era criança. Ele sempre questionava a sua mãe sobre a possibilidade de acompanhá-lo nos sonhos e assim, ajuda-lo a resolver os conflitos desta seara assustadora de suas noites de sono. Objetiva e gentil, a sua mãe disse que “o sonho era o único lugar onde nós só podemos ir sozinhos”. Foi um momento amedrontador, mas fundamental para que nós, cinéfilos, ganhássemos anos depois, o filme com Freddy Krueger. Da janela do seu quarto que tinha vista para a rua onde um homem misterioso o assustou certa noite, ao se aproximar do vidro e olhar fixamente para Craven, enquanto tentava dormir, e os estudos sobre psicologia e sonhos, realizados durante a época de faculdade, a semente de Krueger atravessou um longo processo de germinação, por isso fixou-se tão bem quando teve a oportunidade de ganhar “vida” dentro da lógica mágica cinematográfica.

Ademais, ao longo de seus 91 minutos, A Hora do Pesadelo flerta com a ambivalência de seu desfecho que permite interpretações múltiplas. Teria sido um pesadelo coletivo de todas as pessoas da cidade, em especial, de Elm Street, reduto da classe média local e seus receios e inseguranças? Diferente de Jason, Michael ou qualquer outro assassino slasher, Freddy ataca as pessoas em seus pesadelos, algo mais difícil de escapar, pois tal como sabemos, não podemos comandar todos os aspectos desse ambiente onírico. Você, caro leitor, já deve ter tido um desses sonhos ruins, despencando de uma altura aterrorizante ou tendo que lidar com uma situação abominável, fora de seu controle, digamos, racional, não é mesmo? É com isso que A Hora do Pesadelo trabalha, um conjunto de conflitos estabelecidos diante de situações que muitas vezes fogem do nosso controle, matéria-prima básica para o desenvolvimento dramático que nos envolve e faz refletir e temer.

Vamos agora analisar o filme em pormenores. Preparados?

Na abertura deste slasher inovador, a equipe de Wes Craven destaca o modo de operação de Freddy Krueger na concepção de sua imagem aterrorizante. Um suéter de duas cores contrastantes, isto é, verde e vermelho, escolhidas cuidadosamente para os efeitos semióticos pretendidos pela narrativa e a confecção da icônica luva com garras afiadas, idealizada para destroçar, nos pesadelos, e, concomitantemente, na realidade, os jovens incautos de A Hora do Pesadelo. Design de som, trilha sonora e design de produção trabalham assertivamente para compor os elementos visuais atmosféricos que predominam ao longo de todo o filme.

Em seu primeiro encontro com Freddy Krueger, Tina atravessa uma aterrorizante jornada com muito uso de efeitos especiais, direção de fotografia com iluminação soturna e design de som que evidencia o perigo representado pelo antagonista dos pesadelos. Na esteira do legado de A Hora do Pesadelo, esta é uma das passagens mais emblemáticas e recorrentes quando o filme é referenciado na cultura pop.

Logo após o seu “amargo pesadelo” de Tina, acompanhamos uma passagem com atmosfera ainda onírica, nebulosa, na rua onde Freddy Krueger vai tornar a existência dos jovens da narrativa num pesadelo constante. As crianças que brincam de pular corda entoam a emblemática música tema, numa contagem numérica aterrorizante, responsável por reforçar os horrores do antagonista no passado e o seu retorno para o tempo presente. No carro vermelho, referência direta ao monstro das garras afiadas e ao seu caminho de sangue, os personagens incautos se apresentam para o espectador, vítimas de um pesadelo que parecerá não ter fim.

Num encontro entre os jovens para assistir filmes e comer pipoca, eles compartilham as coincidências em torno do mesmo pesadelo nas últimas noites. Cada um descreve Fredy Krueger e a similaridade das situações oníricas despertará a curiosidade de Heather, uma final girl com faro investigativo. Na sequência seguinte, um dos momentos de contato entre o antagonista e Heather, passagem também bastante referenciada na cultura pop.

Apesar de alguns efeitos especiais não surtirem o mesmo efeito da época, 1984, A Hora do Pesadelo traz sequências icônicas que tal como já mencionado, ganharam versões metalinguísticas em outros filmes, séries, videoclipes, etc. A cena em questão é parte do pesadelo de Tina, momento em que sua vida é aniquilada pelo antagonista com garras afiadas e mortais. Mais adiante, o design de som delineia o quão sádico é Freddy Krueger, figura que traça faíscas com suas garras e não poupa ninguém quando o assunto é o estabelecimento de sua vingança contra os jovens de Elm Street, algo devidamente explicado no desfecho.

Para quem conhece A Hora do Pesadelo, a resposta não é complexa. Freddy Krueger é um ícone sobrevivente na cultura pop, âmbito de produção que

Outra passagem memorável: Freddy Krueger ataca Tina e o seu namorado é quem leva a culpa pelo crime sangrento. Arrastada pelas paredes do quarto, a cena foi uma das mais trabalhosas para Wes Craven e teve releitura no assassinato da babá de Dylan, o filho de Heather, no também ótimo O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger. Inspirada nos efeitos de filmes como O Picolino, com seus cenários móveis e diferenciados, os realizadores de A Hora do Pesadelo capricharam na concepção e entregaram uma boa cena, ainda muito eficiente para os padrões do público contemporâneo.

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Nesta sequência, proposital ou não, a caminhada de Nancy se assemelha ao trilhar de Jamie Lee Curtis como Laurie Strode em Halloween: A Noite do Terror, de 1978, clássico de John Carpenter que ganhou ressonâncias na onda slasher dos anos 1980. A moça atravessa a rua tranquila, sem grandes dispersões e barulhos, até encontrar com o namorado de Tina, na posição de fugitivo. Mais adiante, outra sequência de pesadelo, desta vez, na escola. Cena também memorável e bastante reiterada em outros filmes, tais como a refilmagem de 2010 e o turbinado crossover de Freddy Krueger com Jason Vorhees, de Sexta-Feira 13.

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A famosa sequência do pesadelo na escola continua, com o cadáver de Tina ensanguentado, para o horror de Nancy. Na sala de aula, a perspectiva dos realizadores nos remete, mais uma vez, ao clássico momento de Jamie Lee Curtis também estudando, enquanto Michael Myers espreita do lado de fora. São construções estruturais diferentes, mas com mesma perspectiva.

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Duas passagens também emblemáticas: o banho de Nancy, ameaçada pela presença de Freddy Krueger em sua banheira, e a angustiante subida pelas escadas, momento em que o antagonista estabelece uma série de peripécias para a garota enfrentar, trechos que se aproxima do final apoteótico e dinâmico. Nas passagens exclusivamente oníricas, a direção de fotografia capricha no uso da luz azul, tendo em vista buscar o efeito imersivo desejado.

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A hora da verdade: Nancy sonha durante um exame e nesta dinâmica, traz o chapéu de Freddy Krueger para a realidade. Mais adiante, a sua mãe alcoólatra expõe a verdade para a filha: Freddy foi morto no passado, acusado de ter abusado dos jovens desta rua. Agora, sublimados pelos acontecimentos recalcados na mente, o grupo precisará se articular para sobreviver, algo que, no entanto, já não é mais viável para dois deles, aniquilados impiedosamente por Freddy.

Para quem conhece A Hora do Pesadelo, a resposta não é complexa. Freddy Krueger é um ícone sobrevivente na cultura pop, âmbito de produção que

Interessante observar como A Hora do Pesadelo possui um manancial de cenas icônicas. Nestas passagens, temos um ataque de Freddy Krueger pelo telefone, tentativa de manter Nancy constantemente aterrorizada e, mais adiante, o momento em que o namorado da garota, interpretado por Johnny Depp, é sugado pela cama, numa das melhores passagens da produção.

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Como uma boa protagonista, Nancy percebe que precisará enfrentar de uma vez por todas o seu maior pesadelo. Para isso, prepara o campo de batalha e produz as suas próprias armadilhas, mantendo-se distante do comum na narrativa slasher, filmes que em geral, a mocinha depende do homem para salvar a si e aos demais. Com atmosfera que mescla sonho e realidade, a direção de fotografia trabalha assertivamente na composição da luz, um dos trunfos do filme.

Para quem conhece A Hora do Pesadelo, a resposta não é complexa. Freddy Krueger é um ícone sobrevivente na cultura pop, âmbito de produção que

Deitada na cama, Nancy espera o antagonista aparecer em seus pesadelos, para assim trazê-lo para a realidade e eliminar de uma vez por todas o seu reinado de horror. Adiante, após uma angustiante sequência de batalha e perseguição, Nancy organiza o fim de seu algoz com o elemento que mais o aterroriza: o fogo. Freddy Krueger aparentemente é aniquilado, mas uma passagem final, aparentemente pesadelo, indica que as coisas não se encerraram tão fácil. O psicopata onírico retornaria, tantas vezes, em filmes sofríveis, até reencontrar o seu criador em 1993, no metalinguístico O Novo Pesadelo: O Retorno de Freddy Krueger, analisado em pormenores na próxima seção.

 

Leonardo Campos é Graduado e Mestre em Letras pela UFBA.
Crítico de Cinema, pesquisador, docente da UNIFTC e do Colégio Augusto Comte.
Autor da Trilogia do Tempo Crítico, livros publicados entre 2015 e 2018,
focados em leitura e análise da mídia: “Madonna Múltipla”,
“Como e Por Que Sou Crítico de Cinema” e “Êxodos – Travessias Críticas”.

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Clássicos da Sétima Arte

O Silêncio dos Inocentes

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em

história recente do cinema. Assim é O Silêncio dos Inocentes, tradução intersemiótica do romance homônimo de Thomas Harris,
Fotos: Divulgação

Professor Leonardo Campos

Uma narrativa cinematográfica que mudou os rumos do suspense e se estabeleceu como um dos clássicos modernos mais envolventes e intrigantes da história recente do cinema. Assim é O Silêncio dos Inocentes, tradução intersemiótica do romance homônimo de Thomas Harris, dirigido por Jonathan Demme. Com roteiro assinado por Ted Tally, o filme conquistou as principais estatuetas da cobiçada premiação do Oscar em 1992 e se tornou uma referência em várias vertentes da produção contemporânea, desde a possibilidade de mesclar complexidade narrativa e entretenimento, ao desempenho dramático de todo o elenco, composição operística da trilha sonora, direção de fotografia e design de produção detalhistas e assertivos, dentre outros traços que o tornaram um dos melhores filmes de todos os tempos. Além de tudo isso, a obra nos apresentou o psicopata mais sedutor da história do cinema, figura perigosa, capaz de “matar” alguém apenas com as suas palavras silabadas, voz profunda e ritmada, olhos que quase não piscam, partes que integram esta criatura erudita, audaciosa, mas que na verdade é um monstro, uma espécie de ogro contemporâneo. Sim, falamos de Hannibal Lecter.

Ao longo dos 115 minutos de O Silêncio dos Inocentes, somos informados que um psicopata é o responsável por aterrorizar a região onde a história se desenvolve, tendo como modo de operação, atacar mulheres com um determinado perfil, isto é, vítimas robustas e brancas, encontradas em situações lastimáveis de violência. O responsável pela onda de horror é Buffalo Bill (Ted Levine), um perturbado homem que deseja customizar uma roupa feita de pele das suas vítimas, aos moldes de Ed Gein, conhecido por ter sido o Monstro de Plainfield. A polícia, ao investigar, vai contar com a astúcia da determinada Clarice Starling (Jodie Foster), personagem que não precisa enfrentar apenas o machismo oriundo dos policiais que a circunda, o risco da situação diante do psicopata, mas também terá de lidar com os agonizantes desafios psicológicos, propostos por um importante colaborador da sua “situação problema”: o mencionado Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), canibal enclausurado numa prisão de segurança máxima, figura chave para a resolução do caso, colaboração que chegará com alto custo para todos os envolvidos.

Hannibal Lecter (Anthony Hopkins), Clarice Starling (Jodie Foster) e Jack Crawford (Scott Gleen)

Ele sabe que Clarice Starling é supervisionada por Jack Crawford (Scott Gleen), um de seus desafetos, situação que torna o contato inicial desrespeitoso, mas aos poucos, permite que Lecter crie alguma afinidade com a jovem estagiária do FBI. Após o sequestro da filha de uma senadora, o caso ganha maiores proporções, o que faz a corrida pela caçada a Buffalo Bill se tornar mais intensa. Lecter lança a sua oferta: uma nova cela, com janelas e num local mais sofisticado, além da permissão de Clarice para o famoso “toma lá, da cá”, espécie de transformação da colaboração na investigação em sessão terapêutica para a moça. Neste processo, a cada informação cedida pela jovem agente, o psiquiatra canibal assimila mais dados sobre a personagem, permitindo que nós também criemos a identificação necessária para o envolvimento com o desfecho apoteótico da história evolutiva de uma mulher traumatizada pela morte trágica do pai, pelos cordeiros que eram ceifados na fazenda próxima para onde foi encaminhada quando ficou órfã. Ao tentar salvar um dos animais em determinada situação, acabou sendo enviada para uma instituição luterana onde permaneceu até tornar-se adulta e obstinada a seguir a carreira em investigação criminal.

Com a sua retórica deliciosamente ministrada, tanto nos momentos de tensão quanto nos diálogos mais simples, o canibal, mesmo dono de uma personalidade assustadora, dificilmente consegue repelir o público, pelo contrário, a cada aparição faz os nossos olhos brilharem de encantamento. É o que nos leva aos estudos sobre a presença do psicopata como herói da pós-modernidade, figuras que representam tudo aquilo que nós devemos repelir em nossos códigos civilizatórios. Astuto e inteligente, o Hannibal Lecter de Anthony Hopkins comete crimes enquanto as Variações Goldberg, de Bach, tomam o ambiente como condução musical de seus atos espúrios. Amante da literatura e da filosofia clássica, ele não se apresenta como um assassino vulgar qualquer, o que torna um breve momento de diálogo uma aula de análise do comportamento humano. Enquanto ele ceifa os algozes, pune os maléficos, o seu discípulo passional, Buffalo Bill, também tratado como James Gumb, aniquila mulheres inocentes, cobiça coisas que não lhe pertencem, extraídas de vítimas que tais como os cordeiros que nomeiam a história, são vítimas sacrificiais.

Ted Tally, no desenvolvimento do texto, conseguiu mapear os principais aspectos do romance de Thomas Harris e transforma-los sabiamente em material cinematográfico. Ao longo de seis anos de dedicação ao livro, o escritor construiu os seus personagens com cautela e complexidade, apuro que na versão cinematográfica também foi respeitado. Clarice é uma mulher com o passado traumático, Lecter é um ogro contemporâneo, uma besta que resgata tudo aquilo que é grotesco na história evolutiva da humanidade, uma espécie de Mefistófeles, de Goethe, sábio, corrosivo, audacioso e ciente de suas habilidades manipuladoras. Buffalo Bill é, tal como já mencionado, uma versão de Ed Gein, psicopata que também influenciou a criação de Norman Bates e Leatherface, de Psicose e O Massacre da Serra Elétrica, respectivamente. Na composição do personagem, temos também alguns traços de Ted Bundy e Heidnick Gary, o primeiro pelo fato de se fingir de ferido para atrair as vítimas e golpeá-las covardemente para levar ao caminho da morte e o segundo por manter um poço no porão da casa, espaço onde mantinha as suas vítimas. Num olhar mais geral, o psicopata também traz elementos de Gary Ridgway, o assassino de Green River. Após os seus atos criminosos, despejava os cadáveres neste rio ou em áreas arborizadas próximas.

Em sua estrutura com paralelismos, o filme traz dois mentores digladiando com distanciamento, isto é, Lecter e Crawford, referências para Bill e Starling, também um contra o outro, nesta narrativa primorosa por ser milimetricamente calculada em seu desenvolvimento dramático e estético. O design de produção de Kristi Zea, por exemplo, é um setor que se manteve com base em muitos estudos sobre os perfis dos assassinos que inspiraram a criação da história. Francis Bacon, o polêmico pintor da carne humana, figura controversa das artes visuais no século XX, serviu de referência para algumas passagens, em especial, a cena do ataque de Hannibal Lecter aos policiais, passagem próxima aos momentos decisivos desta narrativa com condução musical orquestrada por Howard Shore, compositor da textura percussiva firme, envolvente, melancólica em alguns trechos e aterrorizante em outros, melhor paisagem sonora da franquia baseada no universo literário criado por Thomas Harris. Os figurinos assinados por Colleen Atwood também são assertivos, ao apresentar Clarice com roupas e maquiagem sem brilhos e excessos, transmitindo visualmente a personalidade discreta, serena e solitária da investigadora.

Coeso e coerente em sua montagem, assumida pelo editor Craig McKay, O Silêncio dos Inocentes triunfa esteticamente, com grande destaque para a sua direção de fotografia, assinada por Tak Fujimoto, profissional que junto ao cineasta Jonathan Demme, concebe imagens com presença constante de close-up, tendo em vista aproximar Hannibal Lecter do público e causar a sensação de medo e desconforto. Outra estratégia do setor foi o estabelecimento do ponto de vista para que pudéssemos acompanhar em cena o que fosse mais próximo do olhar da heroína Starling. Muitas passagens emulam o olhar da personagem e nos permite compreender a história sob o seu ponto de vista. Quando no desfecho, em seu enfrentamento com Buffalo Bill, ela é mergulhada na escuridão da armadilha do antagonista, adentramos na mesma zona de desconforto da personagem, angustiada por não saber se conseguirá sair viva da jornada de horror estabelecida pelo psicopata acuado. Ainda sobre estética e elementos visuais, importante notar a presença do gato como elemento simbólico constante, além da mariposa da morte, inserida na garganta de suas vítimas como uma marca do assassino.

O inseto representa o seu desejo de transformação, levado para uma realidade assustadora quando ele começa a cometer os assassinatos e esfolar as suas vítimas para a confecção da roupa de pele humana, parte de seu projeto assombroso, oriundo da mente perturbada de alguém que teve a cirurgia de transição negada pelos médicos responsáveis por seu caso clínico. Ademais, por ser professor de Literatura e Cinema e Vídeo, sempre coloco a produção como parte integrante da formação dos interessados em aprender sobre cinema, seja pela composição dos quadros, design de produção, lições sobre direção de fotografia, montagem eficiente ou na criação de elementos dramáticos para roteiro que adaptar bem a base ponto de partida, importada da literatura. Assistir ao filme é como sentar diante de uma vigorosa e bem preparada aula de cinema. Jonathan Demme e sua equipe fizeram escola, estabeleceram um padrão seguido por diversas produções posteriores, numa remodelagem do suspense que inclui também referências para as séries televisivas sobre investigação criminal, tema exaustivo na atualidade, banalizados por realizações ficcionais que perderam a possibilidade de inovar diante do esgotamento temático.

Leonardo Campos é Graduado e Mestre em Letras pela UFBA.
Crítico de Cinema, pesquisador, docente da UNIFTC e do Colégio Augusto Comte.
Autor da Trilogia do Tempo Crítico, livros publicados entre 2015 e 2018,
focados em leitura e análise da mídia: “Madonna Múltipla”,
“Como e Por Que Sou Crítico de Cinema” e “Êxodos – Travessias Críticas”.

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