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Pedra de Toque

Ganhando meu pão*

O arroz-com-ovo é o estágio anterior à fome absoluta. É quando se compreende a frivolidade da “vontade de comer”

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Lá pro final da infância, as coisas ficaram sombrias lá em casa. O cardápio não variava. Arroz com ovo. Todo dia. Minha mãe tentava nos

Marcus Borgón

Me lembro da comemoração quando cheguei. Abraços, beijos, e muita gente estranha me dando parabéns. Bêbadas, eufóricas. Eu só pensava no exame de sangue que teria de fazer na manhã seguinte. E não tinha um puto. Prestava serviço no interior, não havia almoçado e já tinha de jejuar. Eu não podia desperdiçar a chance de repelir a mendicância que me acossava violentamente. Levar uma vida sem sobressaltos e apagões.

Lá pro final da infância, as coisas ficaram sombrias lá em casa. O cardápio não variava. Arroz com ovo. Todo dia. Minha mãe tentava nos convencer, dizendo que tinha muita criança querendo um grãozinho daquele pra comer. Muita gente passava fome. Eu sabia mas não entendia. Em pouco mais de um ano fomos de uma mesa de fartura à agrura do arroz-com-ovo. Dias depois a luz seria cortada, e a comida (e a própria vida) perderia a cor que nos remediava. A mãe de um amigo, anos mais tarde, me contaria que passou pela mesma situação. E que lá o moleque ainda achava de atirar a escassa mistura nas pessoas que esperavam a condução. O arroz-com-ovo é o estágio anterior à fome absoluta. É quando se compreende a frivolidade da “vontade de comer”. A hipérbole “morrendo de fome” deixa de ser uma figura de linguagem e passa a doer. Superamos aquela fase mais crítica, mas nunca mais tivemos folga no orçamento. Vivíamos ajustando as contas de uma forma quase desesperada, no fio da dignidade.

No segundo dia útil o governo deposita, me garantiu a moça do setor pessoal. Eles comemoravam por mim, uma vez que eu não encontrava ânimo. Para não parecer ingrato, distribuí meia dúzia de sorrisos medidos, em contraste ao estômago que grania feito louco. Talvez eles desconfiassem daquilo que eu, a duras penas, carregava como pétrea certeza. Um histórico de equívocos apontava um futuro pra lá de obscuro. Saber que espantaria o fantasma da penúria era mesmo um bom motivo de celebração. Fui dormir pra esquecer o vazio na barriga, sonhando com o banquete do dia 2.

* “Ganhando meu pão” é o título de um livro de Maksim Górki.
Marcus Borgón colaborou com a revista de cultura
e literatura Verbo21. Publicou textos em jornais,
sites especializados em literatura, e coletâneas de contos.
É autor da novela ‘O Pênalti Perdido’ (P55 edições, 2016).

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Pedra de Toque

O tédio dessa city *

O estudante quer fazer uma trilha pelos meandros paradisíacos do inconsciente

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busca do mocó da velhinha. Quer fazer uma trilha pelos meandros paradisíacos do inconsciente.– Dona Edite, salve-me do tédio dessa city!
Foto: Jota Freitas/Setur

Marcus Borgón

O estudante desce as quebradas do Centro Histórico. Leva a reboque, a nova namoradinha. Está em busca do mocó da velhinha. Quer fazer uma trilha pelos meandros paradisíacos do inconsciente.

– Dona Edite, salve-me do tédio dessa city!

Ele quer impressionar a menina, mostrar que tem moral na maloca. Dona Edite abre aquele sorriso. Nem de longe parece uma pessoa com tantas tribulações no curriculum vitae. Um filho assassinado. Outro na detenção. Duas filhas sumidas no mundo. Para ela ficou a companhia de sete netinhos. Sete boquinhas pra alimentar. E uma boca pra dar conta. Algum malandro sagaz colocou a velha como testa-de-ferro. Sabe que a meganha não vai colocá-la no saco. Muito menos dar choque, pau-de-arara. Nada disso. Ela aprendeu desde pequena que trairagem é coisa do cão, de Judas Iscariotes. E este é malhado no sábado de Aleluia. No máximo, ela leva um sabão da delegada e logo está de volta. Tem que dar o mingau dos pequenos. E atender a freguesia.

– Essa tá mofada, vou lá dentro buscar da mais nova.

A namorada, com um medo mal disfarçado, dá um sorrisinho amarelo e olha para o relógio. E logo retorna Dona Edite, a portadora da alegria. Ela sabe como valorizar sua mercadoria e fidelizar a clientela. Quer dizer…

– Você é namorada dele? É um menino bom, estudante de advocacia. Dê uns conselhos pra ele, pra ver se coloca a cabecinha no lugar. Essas “coisa errada” não dão camisa pra ninguém. Tenho mais de setenta, eu bem sei.

*trecho da música “Edite”, de Renato Queiroz e Paulo Fortes.
Marcus Borgón colaborou com a revista de cultura
e literatura Verbo21. Publicou textos em jornais,
sites especializados em literatura, e coletâneas de contos.
É autor da novela ‘O Pênalti Perdido’ (P55 edições, 2016).

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Pedra de Toque

Ainda que mal pergunte, ainda que mal respondas*

“O que você faz da vida?” Geralmente quem faz essa pergunta não quer saber apenas qual é a sua ocupação

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Outro dia, uma amiga me falava das perguntas que "incomodam mais que cisco no olho". Citou uma porção delas. Ofensivas (você viu o dinheiro
Foto: Pixabay

Marcus Borgón – Escritor

Outro dia, uma amiga me falava das perguntas que “incomodam mais que cisco no olho”. Citou uma porção delas. Ofensivas (você viu o dinheiro que estava aqui?); supeitas (você confia na sua esposa?); inconvenientes (já casou?). Mas a que eu considero mais complicada é “o que você faz da vida?” Geralmente querem saber da sua ocupação, embutindo a real curiosidade: quanto você ganha. Em segundo plano, se sua profissão goza de prestígio; se sua empresa é grande e respeitada; se você tem projeção na carreira; etc. O personagem de Lázaro Ramos em O Homem que Copiava, com vergonha de dizer que trabalhava tirando xerox, adotou um termo que emprestava maior importância à função: operador de máquina fotocopiadora.

E é difícil escapar dessa esparrela. A tendência é dizer o que possuímos ou aquilo que representamos. E falar de si sem resvalar em autopromoção ou cabotinismo é uma qualidade muito rara, quase uma quimera.

Eu sempre fiquei desarmado diante dessa interrogativa. Responder de forma objetiva (“apenas vivo”) soa deselegante. Sair listando as atividades, tampouco se revela um caminho.
Para uma pessoa exibida, tal pergunta cai como uma luva. Mas para um sujeito comum, meio franciscano, meio desajustado, sem grandes pretensões e conquistas, a questão é como um xeque-mate.

Os sites de grandes empresas e instituições costumam trazer um link chamado FAQ (Frequently Asked Questions) para melhor orientar seus usuários/clientes. Nas relações pessoais, isso nos exigiria um tremendo esforço de levantamento de todas as perguntas indigestas possíveis e, depois, uma memória prodigiosa para arquivar as respectivas respostas. O que geraria uma série de frases protocolares, mas não enfrentaria o problema central que é a inexistência de respostas sóbrias e razoáveis para determinadas indagações. E assim, o ideal não se coloca como uma possibilidade: evitar que a pergunta seja feita.

*excerto do poema “Ainda que mal”, de Carlos Drummond de Andrade.
Marcus Borgón colaborou com a revista de cultura
e literatura Verbo21. Publicou textos em jornais,
sites especializados em literatura, e coletâneas de contos.
É autor da novela ‘O Pênalti Perdido’ (P55 edições, 2016).

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Pedra de Toque

O sorriso do cachorro*

Os verdadeiros moradores da rua são os cachorros. E os da rua Amparo do Tororó têm os olhos tristonhos. Feito cachorro antigo

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Os verdadeiros moradores da rua são os cachorros. E os de lá têm os olhos tristonhos. Feito cachorro antigo. Parecem ter alma. Sempre os

Marcus Borgón – Escritor

O bairro do Tororó tem praticamente uma única rua, que começa como José Duarte, e se transforma em Amparo do Tororó. Até a Praça Dodô e Osmar, o clima é frenético e movimentado, inclusive à noite. Contraste enorme com o trecho Amparo, que se assemelha a um mergulho no passado. As tardes fluem com vagar, vizinhos colocam cadeiras na calçada. Morei por oito anos nesta rua, bem no final, se é que se pode falar assim de uma rua meio oroboro, com fim em si mesma.

Os verdadeiros moradores da rua são os cachorros. E os de lá têm os olhos tristonhos. Feito cachorro antigo. Parecem ter alma. Sempre os via por ali, jogados. Provável que nunca tenham trabalhado. Nem serviço de cachorro: latir, morder, uivar pra lua. Nada. Às vezes perambulam. Pedem atenção, mas muito pouco. Tinha um que costumava dormir no teto de um Palio. Mas já o flagrei no capô de um Siena. E até mesmo em cima de um Uno. Parecia ter uma queda pelos carros da Fiat. A cadela malhada tinha um cio potente. Chegava macho de todo canto. De Nazaré, do Centro Histórico. Até cachorro da praia pintava na área. Gang bang canina. Uns garotos observavam atentamente a disputa pela fêmea. Cheguei perto e disse “o amor é um cão dos diabos”. Ninguém entendeu nada. Olhei pro céu e mandei um beijo para o Velho Safado.

Eu cresci vendo Lassie e Benji na tevê, cães com atributos humanos. Além do pinguço Monsieur Cognac. Aquilo os descaracterizava e, em consequência, os diminuía. Apesar de termos sentimentos em comum, nossa arrogância intelectual nos embrutece. Baleia certamente imaginava seu destino, antes mesmo de Fabiano apontar em sua direção. Após a dor, vislumbrou um paraíso cheio de preás, e a mão do próprio algoz a lhe afagar.

Minha vizinha tinha um poodle. Nunca colocara o pé fora de casa. Um dia ele estava na janela, de cueca. Em outra oportunidade, calçava meias. Vivia me mostrando os dentes. Ao contrário da galera da rua, bem descansada. Ela me contou que Pierre (o nome da fera) era muito estressado. Fazia dieta, tomava remédio controlado e assistia Netflix.

Ao sair para o trabalho, numa segunda de manhã, ouvi um menino indagar o avô sobre o porquê dos cachorros encerrados nas grades reagirem raivosamente aos que flanavam pela rua. O velho, com a poeira acumulada na estrada, respondeu “com gente acontece a mesma coisa”. O pequeno franziu a testa, e segurou com mais força a mão do vovô.

*extraído da canção “Toque Frágil”, de Walter Franco.
Marcus Borgón colaborou com a revista de cultura
e literatura Verbo21. Publicou textos em jornais,
sites especializados em literatura, e coletâneas de contos.
É autor da novela ‘O Pênalti Perdido’ (P55 edições, 2016).

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