Meio Ambiente
Planejamento das bacias hidrográficas ganha protagonismo diante dos extremos climáticos na Bahia
No Dia Mundial da Água, especialistas destacam o papel dos comitês de bacias e dos planos estratégicos para garantir segurança hídrica em um cenário de mudanças climáticas
Em meio ao aumento de eventos climáticos extremos — como períodos prolongados de seca e episódios de chuvas intensas — o planejamento das bacias hidrográficas tem ganhado relevância na gestão da água. Estudos do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas indicam que o Nordeste brasileiro está entre as regiões mais vulneráveis à variabilidade climática, o que amplia os desafios relacionados à disponibilidade e à gestão dos recursos hídricos.
O tema ganha destaque no Dia Mundial da Água, celebrado neste domingo (22), data instituída pela Organização das Nações Unidas (ONU) para estimular a reflexão sobre o uso sustentável da água. O debate também se intensifica em um país que concentra parcela significativa dos recursos hídricos do planeta. Segundo a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Brasil abriga cerca de 12% da água doce superficial do mundo, distribuída em diferentes bacias hidrográficas. No entanto, essa disponibilidade é desigual entre as regiões, o que exige planejamento estratégico para garantir o abastecimento, a produção agrícola e a preservação ambiental.
Nesse contexto, a gestão territorial das bacias hidrográficas desempenha papel central na organização do uso da água. No Brasil, os Comitês de Bacias Hidrográficas, previstos na Política Nacional de Recursos Hídricos (Lei nº 9.433/1997), reúnem representantes do poder público, dos usuários da água e da sociedade civil para discutir prioridades de uso e estratégias de gestão.
Na Bahia, existem atualmente 14 Comitês de Bacias Hidrográficas, que atuam em diferentes regiões do estado na construção de soluções voltadas à gestão sustentável dos recursos hídricos.
“A gestão da água exige planejamento, participação social e visão de longo prazo. Os comitês de bacias são espaços fundamentais para construir soluções coletivas para os desafios da segurança hídrica”, explica Ana Odália Sena, coordenadora do Fórum Baiano de Comitês de Bacias Hidrográficas (FBCBH).
Entre as iniciativas recentes de planejamento hídrico no estado, destaca-se o trabalho desenvolvido na Bacia do Recôncavo Norte e Inhambupe, que abrange Salvador e a Região Metropolitana. No final de 2025, foram aprovados o Plano de Bacia e o Enquadramento dos Corpos d’Água, instrumentos que estabelecem metas de qualidade da água e orientam ações de gestão e investimentos voltados à conservação e ao uso sustentável dos recursos hídricos da região.
Outro processo em andamento ocorre na Bacia do Rio Paraguaçu, que concentra o maior número de municípios em sua região de planejamento no estado, o que demanda um plano estratégico robusto. O Plano de Bacia e o Enquadramento dos Corpos d’Água estão em fase de elaboração, com previsão de conclusão até o final de 2026. A bacia abrange uma extensa porção do território baiano, e a implementação do plano deverá impactar diretamente a gestão dos recursos hídricos de diversas cidades, considerando as demandas de abastecimento humano, agricultura e preservação ambiental.
“O Plano de Bacia é um instrumento essencial para orientar decisões sobre o uso da água e garantir que diferentes setores possam conviver de forma equilibrada dentro da mesma bacia hidrográfica”, observa Ismael Medeiros, vice-presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Paraguaçu.
No oeste da Bahia, região marcada pela forte presença da produção agrícola irrigada, a gestão das bacias hidrográficas também é considerada estratégica para conciliar desenvolvimento econômico e conservação ambiental.
“A água é um recurso fundamental para diferentes atividades econômicas e para o abastecimento das populações. O papel dos comitês é promover o diálogo entre os diferentes usuários e buscar soluções sustentáveis para o seu uso”, comenta Lia Dugnani, presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Grande.
A implementação dos Planos de Bacia, além de orientar a gestão dos recursos hídricos, consolida-se como uma ferramenta essencial para garantir a segurança hídrica e o desenvolvimento sustentável das diversas regiões da Bahia, especialmente diante dos desafios impostos pelos eventos climáticos extremos.
Meio Ambiente
Chuvas colocam praias tradicionais de Salvador em alerta para banho
Boletim do Inema mostra piora temporária da qualidade da água em pontos turísticos da capital, enquanto maior parte do litoral baiano segue liberada para os banhistas
Quem pretende aproveitar o fim de semana nas praias baianas deve ficar atento às condições do mar. O mais recente boletim de balneabilidade divulgado pelo Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) aponta que trechos de algumas das praias mais conhecidas de Salvador estão impróprios para banho, reflexo do período de chuvas que atinge o litoral do estado. Ao mesmo tempo, a maior parte dos 147 pontos monitorados continua apresentando condições satisfatórias para os banhistas.
Entre os locais que receberam recomendação negativa nesta semana estão Porto da Barra, Farol da Barra, Forte de Santa Maria, Bonfim e Pedra Furada, áreas que costumam concentrar grande fluxo de moradores e turistas. Em contrapartida, praias como Ondina, Rio Vermelho, Itapuã, Stella Maris e Flamengo permanecem liberadas.
De acordo com o Inema, a mudança na qualidade da água está associada à atuação de um sistema frontal sobre o litoral baiano. Durante períodos de chuva, a água escoada pelas galerias pluviais pode carregar resíduos e outros poluentes até o mar, aumentando os níveis de contaminação microbiológica e comprometendo temporariamente a balneabilidade das praias.
Fora da capital, o cenário é mais favorável. Na Costa dos Coqueiros, destinos turísticos como Praia do Forte, Guarajuba, Imbassaí e Costa do Sauípe seguem aptos para banho, reforçando o bom desempenho ambiental de parte significativa do litoral norte baiano. Já os pontos de Buraquinho, Busca Vida, Jauá e Interlagos aparecem na lista de restrições.
Na Baía de Todos-os-Santos, o monitoramento indica resultados distintos entre os municípios. Enquanto praias de Itaparica, Salinas da Margarida e Vera Cruz permanecem próprias para recreação, todos os pontos analisados em Madre de Deus foram considerados impróprios. A classificação também alcança algumas praias tradicionalmente frequentadas por visitantes em localidades vizinhas.
O levantamento mostra ainda uma situação predominantemente positiva no sul e extremo sul do estado. Destinos procurados durante todo o ano, como Morro de São Paulo, Guaibim, Porto Seguro, Arraial d’Ajuda, Trancoso, Prado e Cumuruxatiba, seguem sem restrições para banho, assim como a maior parte das praias monitoradas em Ilhéus, Itacaré e Canavieiras.
Realizado semanalmente, o monitoramento do Inema utiliza a presença da bactéria Escherichia coli como indicador da qualidade da água e de possíveis contaminações por esgoto. Com a previsão de continuidade das chuvas nos próximos dias, o órgão reforça a orientação para que a população evite mergulhar no mar logo após temporais e mantenha distância de áreas próximas a canais de drenagem, rios e pontos de lançamento de efluentes.
Mais do que um retrato momentâneo da qualidade das águas, o boletim funciona como um importante instrumento de saúde pública, especialmente em períodos de instabilidade climática, quando as condições das praias podem mudar rapidamente ao longo da costa baiana.
Meio Ambiente
INMET emite alerta de temporais na Bahia; Neoenergia Coelba reforça equipes e orienta população
Aviso prevê ventos de até 60 km/h, descargas elétricas e acumulados de chuva de até 50 mm por dia em municípios do litoral, Recôncavo e sul do estado
O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) emitiu um alerta de temporais para parte da Bahia, com previsão de ventos intensos entre 40 km/h e 60 km/h, descargas elétricas e chuvas de até 50 mm por dia. O aviso entrou em vigor nesta quarta-feira (15) e abrange principalmente a faixa litorânea e a região leste do estado. No extremo sul baiano, no entanto, temporais já vêm sendo registrados desde a noite de segunda-feira (13).
Diante do cenário de instabilidade climática, a Neoenergia Coelba reforçou seu efetivo operacional e alerta a população para os riscos relacionados à rede elétrica durante as tempestades.
Os ventos fortes podem provocar a queda de árvores de grande porte e o arremesso de objetos, causando danos à rede de distribuição de energia, incluindo fiações e equipamentos. Para garantir maior agilidade no atendimento de possíveis ocorrências, a distribuidora ampliou o número de eletricistas em campo.
Engenheiros e técnicos que atuam no Centro de Operações Integradas (COI) seguem monitorando, em tempo real, os impactos das condições climáticas sobre o sistema elétrico. Por meio do COI, a Neoenergia Coelba pode realizar manobras automáticas e remotas para recompor o fornecimento de energia em diversos pontos da rede, reduzindo o tempo de restabelecimento do serviço.
O plano operacional de contingência da companhia também prevê atenção especial à priorização do atendimento de serviços essenciais, como hospitais, unidades de saúde, escolas, órgãos de segurança pública e clientes cadastrados que dependem de equipamentos elétricos para a manutenção da vida.
Municípios sob alerta
O aviso tem foco em municípios da Região Metropolitana de Salvador e do Recôncavo Baiano, incluindo:
- Salvador
- Lauro de Freitas
- Camaçari
- Simões Filho
- Candeias
- Itaparica
- Vera Cruz
- Santo Amaro
- Cachoeira
- Maragogipe
Também estão sob atenção cidades do Litoral Sul e Baixo Sul, como:
- Ilhéus
- Itabuna
- Valença
- Cairu
- Camamu
- Itacaré
- Porto Seguro
- Teixeira de Freitas
- Prado
- Caravelas
- Eunápolis
Orientações de segurança
Os cuidados com a eletricidade são fundamentais para evitar acidentes durante temporais. A Neoenergia Coelba reforça as seguintes recomendações:
Em caso de queda de cabos elétricos, não toque nem se aproxime. Afaste outras pessoas do local e acione a Neoenergia Coelba pelo telefone 116.
Se a fiação cair sobre um veículo, permaneça dentro do carro e impeça a aproximação de terceiros. Acione a Neoenergia Coelba (116) e o Corpo de Bombeiros (193).
Procure abrigo seguro durante tempestades com raios, mantendo distância de janelas, portas e estruturas metálicas.
Não realize reparos nem suba em telhados durante a chuva, incluindo a instalação ou manutenção de antenas.
Em caso de alagamento em residências, comércios ou indústrias, desligue o disjuntor geral e retire os aparelhos elétricos das tomadas.
Meio Ambiente
Inverno na Bahia começa com influência do El Niño e contraste climático entre litoral e interior
Estação é marcada por temperaturas acima da média, seca no semiárido e aumento das chuvas na faixa litorânea, impactando diretamente os biomas do estado
O inverno na Bahia começou neste domingo (21), às 5h24. Para este ano, especialistas do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema) indicam que a estação será marcada pela influência do El Niño, fenômeno que atua no Oceano Pacífico e tende a favorecer temperaturas acima da média no estado, principalmente na segunda metade do período.
As mudanças trazidas pelo novo ciclo, no entanto, vão além dos termômetros. Em um estado que reúne biomas e ecossistemas como Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Restinga e Manguezal, o inverno provoca respostas climáticas distintas entre o litoral e o interior. Esse contraste influencia diretamente as paisagens, os ciclos reprodutivos e as estratégias de sobrevivência de parte significativa da flora e da fauna.
Segundo o coordenador de Estudos de Clima e Projetos Especiais do Inema, Aldírio Almeida, o inverno na Bahia é controlado por sistemas de alta pressão subtropical do Atlântico Sul. Esses sistemas atmosféricos — nos quais o ar desce e se dispersa — reforçam ventos em direção ao sudeste e criam um padrão climático quase oposto entre o litoral e o interior do estado.
No semiárido baiano, o inverno é um período de estiagem, com baixa ocorrência de chuvas e grande amplitude térmica entre o dia e a noite. Já no litoral, especialmente em Salvador e no Recôncavo, a estação representa o período de maior intensidade pluviométrica, devido à umidade transportada pelos ventos e à interação com o relevo costeiro.
“Há uma grande diferença entre o que acontece no semiárido e no litoral. Enquanto o semiárido enfrenta uma seca intensa, o litoral, sobretudo Salvador e o Recôncavo, recebe as maiores chuvas do ano. Isso ocorre porque o sistema de alta pressão do Atlântico Sul e os ventos de sudeste atuam em conjunto, levando umidade para a costa e intensificando a seca no interior”, explica o coordenador.
A tendência é de que esse contraste seja intensificado pela atuação do El Niño ao longo dos próximos meses. Apesar da previsão de temperaturas acima da média histórica, o frio típico da estação ainda deve ser sentido nos primeiros meses, com registros de mínimas abaixo de 10°C em áreas de maior altitude, como na Chapada Diamantina e no sudoeste baiano.
No oeste do estado, uma das marcas do inverno é a amplitude térmica, com madrugadas frias e tardes quentes. Já a formação de neblina e nevoeiro é comum em regiões serranas e de vale, onde a combinação de umidade e queda de temperatura favorece a condensação na atmosfera.
“A atuação do El Niño tende a acentuar esse contraste, com temperaturas mais elevadas e impacto direto na intensidade da estiagem no semiárido. Ainda assim, esperamos episódios de temperaturas baixas neste início de estação”, completa Aldírio Almeida.
Caatinga em período crítico de estiagem
A Caatinga, bioma predominante no território baiano, é também a que experimenta a mudança mais drástica com a chegada do inverno. As espécies vegetais apresentam adaptações únicas entre os ecossistemas tropicais secos do mundo.
Durante a estação, a flora entra em processo de deciduidade — quando árvores e arbustos perdem suas folhas como forma de reduzir a perda de água por transpiração. Esse fenômeno dá origem à paisagem esbranquiçada típica do bioma, conhecida como “mata branca”, termo de origem tupi.
A coordenadora de Gestão da Biodiversidade do Inema, Mara Angélica dos Santos, destaca espécies como a catingueira (Cenostigma pyramidale), o juazeiro (Ziziphus joazeiro) — uma das poucas que mantêm folhagem na seca —, a aroeira-do-sertão (Myracrodruon urundeuva) e cactáceas como o mandacaru (Cereus jamacaru) e o facheiro (Pilosocereus pachycladus).
“As cactáceas tornam-se protagonistas na paisagem por seus caules, que funcionam como reservatórios de água e fonte de alimento para a fauna. A perda de folhas não indica degradação, mas uma estratégia evolutiva sofisticada para lidar com o estresse hídrico extremo”, afirma.
Cerrado combina seca e floração
No Cerrado, presente no oeste e sudoeste da Bahia, o inverno coincide com a estação seca, caracterizada pela baixa umidade relativa do ar e maior suscetibilidade a incêndios, muitos deles associados à ação humana.
A vegetação apresenta dois comportamentos distintos: enquanto plantas rasteiras e arbustos entram em uma espécie de dormência — com secagem da parte visível e manutenção das raízes vivas —, espécies arbóreas como o ipê-amarelo (Handroanthus ochraceus) e o ipê-roxo (Handroanthus impetiginosus) florescem intensamente.
“Sem folhas, as flores ganham mais visibilidade, o que aumenta a eficiência da polinização em um período de escassez de recursos”, explica Mara Angélica.
Litoral tem inverno chuvoso e alta produtividade
Nas áreas de Mata Atlântica, incluindo restingas e manguezais do litoral baiano, o inverno representa a estação mais úmida, invertendo a lógica de escassez observada no interior. O aumento das chuvas estimula ciclos de crescimento, frutificação e renovação da vegetação.
Nos manguezais, há maior aporte de sedimentos e matéria orgânica trazidos pelos rios, o que intensifica a produtividade do ecossistema. Nas restingas, a maior disponibilidade hídrica favorece a frutificação de espécies como pitanga (Eugenia uniflora) e araçá (Psidium sp.).
Em Salvador, embora o inverno faça parte do período chuvoso, os maiores volumes médios de precipitação costumam ocorrer entre abril e maio. Junho ainda registra índices elevados, mas a tendência é de redução gradual das chuvas ao longo da estação, especialmente entre julho e setembro.
Ainda assim, as condições permanecem mais úmidas do que em grande parte da primavera e do verão, o que impacta diretamente a vegetação urbana e os remanescentes de Mata Atlântica na capital.
“Mesmo em áreas como o Parque de Pituaçu, é possível observar o aumento da rebrota, da germinação de sementes e da presença de grupos vegetais mais sensíveis, como briófitas e pteridófitas, que dependem de água para se reproduzir”, ressalta a especialista.
Estação de contrastes
O inverno na Bahia, portanto, apresenta duas faces distintas. No interior, especialmente na Caatinga e no Cerrado, marca o auge do estresse hídrico e desencadeia adaptações sofisticadas da flora. No litoral, por outro lado, a estação é marcada pela elevada umidade e pela intensificação da produtividade biológica.
Compreender essa diversidade de padrões climáticos é fundamental para estratégias de conservação, manejo ambiental e monitoramento da biodiversidade no estado — ações que integram o trabalho do Inema ao longo do ano.
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